Especialistas refletem sobre “Malèna” em mais uma edição do Cine Debate

Obra italiana teve “o amargo preço da submissão” como tema da discussão

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A Associação Paulista de Medicina promoveu, na última sexta-feira, 14 de agosto, mais uma edição do Cine Debate, trazendo o filme italiano “Malèna” (2000), do diretor Giuseppe Tornatore, como foco das interpretações. O tema escolhido para a discussão foi “o amargo preço da submissão” e trouxe o ponto de vista dos debatedores, Wimer Bottura Júnior, psiquiatra e coordenador da sessão, e das psicólogas Maria Helena Melhado e Abigail Costa Ferretti Jung.

A obra, que conta a história de Malèna Scordia, jovem viúva que vive em uma vila na região da Sicília, se passa durante a Segunda Guerra Mundial e relata a obsessão, inveja e violência que a beleza da protagonista desperta em todos aqueles que vivem ao seu redor, homens e mulheres de diferentes idades.

Análises

Para Maria Helena Melhado, por meio do filme, o diretor Tornatore permite que o público pense tanto na perspectiva dos sentimentos quanto nas profundas contradições humanas. “Ele nos traz uma situação de grande contradição da sociedade e da hipocrisia da comunidade, que ao mesmo tempo que massacrou Malèna, depois ficou querendo limpar a barra.”

A psicóloga também relembrou que o filme traz importantes reflexões acerca da adolescência, como idealização e despertar sexual. “Existe aí uma questão da identidade do rapaz em formação, Renato, que ainda era um moleque, mas queria tornar-se homem para poder fazer frente à grandeza da mulher que ele admirava. Ele entendia que só teria direito e estaria à altura dela no dia em que crescesse, como se ela não envelhecesse e o tempo não passasse para ela também. Isso porque a representação que ele tinha dela não era a real.”

Em seguida, Abigail Jung refletiu que tudo que o público conhece sobre Malèna é a partir da opinião dos outros personagens, enquanto a protagonista conta com um silêncio absoluto – no total, ela possui menos de 60 falas, todas elas curtas e sucintas. “Tudo que sabemos vem a partir do ponto de vista do outro. Os homens falam dela a partir do desejo; as mulheres, a partir da ameaça e da inveja; e Renato constrói sua Malèna a partir da fantasia de um adolescente.”

A curiosidade por trás do silêncio da personagem foi tanta que a psicóloga acabou procurando por entrevistas de Monica Bellucci (atriz que a interpretava) para ouvir o que ela tinha a dizer a respeito de uma figura tão instigante. Segundo Abigail, a atriz salientou que o filme não é um retrato de beleza, mas sim da inveja. “O homem a deseja e ela passa a ser provocada, a mulher sente ciúmes e ela passa a ser uma ameaça, o adolescente fantasia e cria uma matéria que existe muito mais dentro dele do que na realidade. E aí, pouco a pouco, ela desaparece e fica aquilo que os outros construíram sobre a sua pessoa”, explicou.

Por fim, Wimer Bottura comentou que, para ele, o filme pode ser dividido em três pontos: inveja, loucura social e dignidade. “Malèna Scordia era objeto da discórdia, foi perdendo o respeito das pessoas por ela e dela pelas pessoas. A alma dela tinha morrido e ela não tinha mais nada a perder. É quase como se tivesse uma série de disjuntores que iluminavam a vida dela e de repente foi desligando um após o outro.”

A próxima edição do Cine Debate acontece no dia 11 de setembro, apresentando o filme “Um Filho” e traz ao público o tema “A Psiquiatria e o sentido da vida”.

Fotos: Reprodução debate