Estadão: O uso da Inteligência Artificial em vídeos, com falsos médicos, se torna cada vez mais um grave problema

O presidente da Associação Paulista de Medicina escreveu um artigo que trata do perigo de "fabricar" médicos, através da IA, para disseminar informações falsas e vender tratamentos sem comprovação científica

APM na imprensa


O futuro da Medicina diante da inteligência artificial

Tecnologia pode vestir um personagem com jaleco, reproduzir sua voz e fazê-lo parecer convincente. Mas não pode fabricar aquilo que sustenta a Medicina: conhecimento, responsabilidade, ética e compromisso com a ciência

Quando a IA passa a fabricar médicos que não existem para disseminar informações falsas e vender tratamentos sem comprovação científica, estamos diante de um problema que ultrapassa os limites da tecnologia: estamos falando de saúde pública.

Conforme reportagem do Pulsa, do Estadão, uma investigação da organização CTRL+Z identificou uma rede de 29 canais em português no YouTube que utilizam personagens criados por inteligência artificial para produzir conteúdos sobre saúde. Juntos, esses canais ultrapassaram 70 milhões de visualizações. A produção ocorre em escala: são cerca de dez vídeos por dia, com aproximadamente 267 mil visualizações diárias.

Os personagens aparecem de jaleco, têm rostos e vozes sintéticas e se apresentam como médicos ou especialistas. Em alguns casos, exibem currículos fictícios e fazem recomendações sobre doenças e tratamentos. O problema é que o conteúdo mistura informações verdadeiras com afirmações sem respaldo científico, criando uma aparência de credibilidade difícil de ser percebida pelo público.

A situação é particularmente preocupante entre pessoas mais velhas, que podem ter maior dificuldade para identificar conteúdos produzidos artificialmente.

Uma pessoa convencida por um falso especialista pode abandonar um medicamento prescrito, adiar a procura por atendimento, substituir um tratamento comprovado por uma terapia sem evidência ou gastar dinheiro com produtos inúteis. Em Medicina, uma decisão equivocada pode significar a perda de uma oportunidade de diagnóstico e tratamento.


É preciso deixar claro: um rosto convincente, uma voz bem produzida e um jaleco não transformam ninguém em médico. A autoridade médica é construída por anos de formação, conhecimento científico, experiência, responsabilidade profissional e compromisso ético com o paciente. A inteligência artificial pode reproduzir a aparência de um profissional, mas não pode assumir a responsabilidade por uma decisão clínica.

Por isso, a Associação Paulista de Medicina defende que as plataformas digitais precisam assumir responsabilidade. Se um conteúdo de saúde falso consegue alcançar milhões de pessoas e ainda pode ser monetizado, existe uma falha que precisa ser enfrentada. É necessário aprimorar os mecanismos de identificação de conteúdos sintéticos, tornar mais claras as informações sobre a origem dos vídeos e agir rapidamente diante de materiais que apresentem riscos à saúde.

A resposta, porém, não depende apenas das empresas de tecnologia. Entidades médicas, autoridades públicas, profissionais de saúde e sociedade precisam trabalhar para ampliar a educação em saúde e a alfabetização digital. O cidadão deve aprender a questionar promessas de cura rápida, desconfiar de tratamentos milagrosos e verificar a formação e a identidade de quem oferece uma orientação médica na internet.

Os 70 milhões de visualizações desses falsos médicos deveriam servir como um alerta. Não são apenas números de audiência. São milhões de oportunidades para que uma informação incorreta influencie uma decisão de saúde.

A tecnologia pode vestir um personagem com jaleco, reproduzir sua voz e fazê-lo parecer convincente. Mas não pode fabricar aquilo que sustenta a Medicina: conhecimento, responsabilidade, ética e compromisso com a ciência.

Fonte: Estadão – confira aqui