Em uma sala de júri, encontram-se 12 homens. Com suas convicções e personalidades distintas, precisam decidir o veredito sobre o caso de um jovem que está sendo acusado de assassinar o próprio pai. Enquanto 11 dos jurados acreditam que o rapaz é culpado, um deles pondera a possibilidade de sua inocência e tenta convencer os outros deste mesmo ponto de vista, dificultando o processo do réu, já que todos eles devem estar em consenso com a decisão.
Essa é a premissa do filme americano “12 Homens e Uma Sentença”, de 1957, do diretor Sidney Lumet, exibido na edição de junho do Cine Debate, realizada na última sexta-feira (12). A sessão, coordenada pelo psiquiatra Ezequiel Gordon e com apresentações de Ana Luisa Meirelles, CEO da Universidade de Pais, e Alfredo Toscano, psiquiatra e psicoterapeuta, abordou o tema “o diálogo frescobol e a busca de compreender um problema”.
Interação
Ana Luisa descreveu que o filme é interessante por conta da interação que ele proporciona à audiência, dando a sensação de que o público também faz parte do júri. “Eu não conhecia o filme e assisti antes, para vir aqui. Agora, assistindo pela segunda vez, consegui ver ainda mais detalhes, por exemplo, como é extremamente atual e com um vocabulário muito surpreendente. Ele nos traz uma reflexão profunda aqui, de como assuntos que tentamos resolver na força da palavra, às vezes, se deixarmos o espaço livre para o outro, conseguimos uma troca muito mais bonita.”
Sobre o tema da discussão, ela explicou que o diálogo frescobol tem o intuito de facilitar a comunicação, algo que acontece com o personagem principal do filme, interpretado pelo ator Henry Fonda. “Ele vai trazendo aquela conversa e deixa um espaço, um silêncio que acaba sendo preenchido por alguém. Acho que ele não tem uma estratégia clara, apenas diz que é possível que o réu não seja culpado e, a partir daí, permite que identifiquemos um pouco o perfil de cada um, suas personalidades e pré-conceitos.”
Ela também pontuou que, apesar de ser um filme que se passa praticamente inteiro dentro de uma única sala, ele não cansa o expectador, salientando que as ponderações a respeito da obra podem ser adaptadas nas conversas e discussões do dia a dia, o utilizando como uma forma de aprendizado, em que todos saem ganhando.
Poder da persuasão
Alfredo Toscano definiu o longa como um “minimalismo cinematográfico em que há uma tensão progressiva”. Ele relembrou que a temática que conduz o filme é a persuasão exercida pelo personagem principal. “Ele inverteu a situação e o curioso é que lembra a psicoterapia de grupo. Eu descobri que esse filme é utilizado pelo pessoal da Psicologia organizacional para ajudar a lidar com equipes e gerências, para discutir técnicas e assuntos relacionados a equipes de trabalho.”
O psiquiatra também destacou que algo que chama a atenção sobre a obra cinematográfica é a forma que ela expõe os diversos tipos de personalidades existentes, visto que há personagens mais agressivos, enquanto outros parecem não se importar tanto com a carga da responsabilidade da decisão que estão prestes a tomar.
“Temos sempre que pensar nos argumentos que são comuns para justificar uma situação. Muitas vezes isso limita, se não tomarmos cuidado e pegarmos o senso geral, que também são úteis, mas se só tivermos ele como base, podemos cometer atrocidades. O questionamento da relativização pode levar a discussões intermináveis, temos que ter cuidado com a generalização, mas é preciso usar uma certa racionalidade também, porque as possibilidades são múltiplas”, complementou.
Inquietação
Finalizando, Ezequiel Gordon trouxe uma experiência pessoal de quando passou um filme para seus alunos, futuros médicos, e sentiu a impaciência deles diante de uma exibição um pouco mais extensa – algo que o remeteu à inquietação que os jurados apresentavam durante o julgamento.
“Eu pensava ‘gente, vocês serão futuros médicos, vão ficar nessa agitação quando estiverem lidando com um paciente, querendo que ele morra logo, porque vocês têm outro compromisso?’ e isso me lembrou um pouco a situação do filme, em que queriam descartar logo o réu, declarando que ele era culpado mesmo sem analisar a fundo”, concluiu.
Fotos: Divulgação

