Com o tema “Graduação Médica – Estado atual e Perspectivas”, o presidente da Associação Paulista de Medicina (APM), Antonio José Gonçalves, apresentou a segunda palestra do Fórum Paulista de Ensino e Qualidade da Assistência Médica, realizado na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp), no dia 26 de fevereiro.
O painel contou com a moderação do diretor Científico da Associação Médica Brasileira (AMB) e representante da entidade como conselheiro federal do Conselho Federal de Medicina (CFM), José Eduardo Lutaif Dolci. Como debatedores, participaram o diretor Científico da APM e vice-diretor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), Paulo Manuel Pêgo Fernandes, e o deputado estadual e membro efetivo da Comissão de Saúde da Alesp, Elton de Carvalho Júnior.
Durante a palestra, Gonçalves apresentou o panorama das escolas médicas no Brasil. Em 2025, o País contabilizou 448 escolas de Medicina, somando 48.491 vagas autorizadas – a maior parte delas concentrada no setor privado, responsável por 79,3% do total, enquanto o setor público responde por 20,7%.


Outro dado relevante é a queda significativa na concorrência para ingresso em Medicina. Em 2014, eram 46,51 candidatos por vaga; em 2023, esse número caiu para 18,81. Nos cursos privados, a proporção é ainda menor, chegando a sete candidatos por vaga.
Já no recorte estadual, o crescimento das escolas é expressivo. Em dez anos, São Paulo registrou a abertura de 40 novas escolas médicas. Dos 645 municípios paulistas, 56 possuem faculdades de Medicina — sendo 14 localizadas na capital. “Em 2015, tínhamos 4.832 vagas autorizadas e, em 2025, esse número subiu para 10.455. Após a criação do Programa Mais Médicos, em 2013, ficou evidente a expansão desordenada e irresponsável das vagas”, explicou.
No Brasil, as vagas públicas passaram de 6 mil, em 2009, para 10 mil, em 2024, representando crescimento aproximado de 60%. Já as vagas privadas saltaram de 10 mil para quase 40 mil no mesmo período, um aumento de cerca de 400%, segundo o presidente da APM. “Isso demonstra de forma muito clara a mercantilização do ensino médico. Tornou-se um grande negócio”, afirmou.
No Estado de São Paulo, a situação não é diferente. “Em 2009, tínhamos 780 vagas públicas. Em 2025, esse número mudou pouco passando para 856. Em relação às vagas privadas, o número aumentou de 2.200, em 2009, para quase 10 mil, em 2025”, acrescentou.
Ele também citou o Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed), criado pelos Ministérios da Educação e da Saúde em abril de 2025. A primeira edição foi realizada em outubro do mesmo ano e reuniu 89 mil participantes em todo o País, dos quais 13 mil obtiveram resultado insatisfatório. Em São Paulo, das 67 escolas médicas avaliadas no estado, 23 tiveram baixo desempenho (34,3% do total) – notas 1 e 2; 14 com nota 5; 13 com nota 4; 17 com nota 3; 15 com nota 2; e 8 com nota 1.
Gonçalves defendeu ainda a aprovação do Exame Nacional de Proficiência em Medicina, atualmente em análise na Câmara dos Deputados, e explicou a diferença em relação ao Enamed. “Enquanto o Enamed avalia as instituições de ensino, o Exame de Proficiência avaliará o médico. A proficiência é fundamental e representa uma das formas de moralizar a formação médica em nosso Estado e em nosso País”, afirmou.
Ao final, Paulo Pêgo reforçou a necessidade de posicionamento das entidades médicas diante do cenário. “A abertura de escolas se tornou um enorme negócio. Não podemos nos omitir. Universidades e entidades médicas precisam participar ativamente, apresentar dados e expor a nossa visão. Caso contrário, prevalecerão apenas os interesses econômicos, distorcendo o debate.”

Fotos: Alexandre Diniz