Culpa, traumas, segredos e a complexidade entre verdade e mentira são alguns dos temas que regem o filme franco-alemão “Frantz”, de 2016, dirigido por François Ozon. O longa foi exibido no Cine Debate da Associação Paulista de Medicina, realizado na última sexta-feira, 10 de abril, trazendo importantes intepretações acerca dos reflexos deixados pela Primeira Guerra Mundial.
O enredo gira em torno de Anna, jovem alemã e viúva de Frantz, morto em embate. Ela conhece Adrien, um soldado francês que diariamente leva flores ao túmulo de seu falecido marido. Com o tempo, eles se aproximam e uma série de revelações feitas a Anna tem o poder de mudar a sua vida e de todos ao seu redor.
Com foco no tema “Guerra em que todos perdem”, a discussão contou com a presença do coordenador do Cine Debate, Wimer Bottura Júnior; da psiquiatra Vanessa Figueiredo Greghi; e do cineasta Josias Theofilo. “Vamos debater este que, na minha concepção, é um dos melhores filmes que eu já assisti na minha vida”, expressou Bottura.
Luto
Para Vanessa, o filme é, acima de tudo, sobre o luto, a forma como ele não é linear e as alternativas possíveis para torná-lo mais suportável. Segundo a psiquiatra, a chegada do personagem Adrien evidencia isso, uma vez que a história que ele inventa se torna uma espécie de remédio psíquico para a família do jovem soldado morto durante a guerra e sua esposa, trazendo alívio, novas memórias e permitindo que eles recuperem a alegria de viver e tenham novamente esperança.
“Naquele momento, essa escolha parece fazer sentido, porque a mentira pode aliviar, proteger e permitir que a vida continue. Mas a que preço? É aí que o filme nos captura, e eu acho que essa é a parte mais genial dele, quando percebemos que também estamos torcendo pela mentira. A nossa empatia pelos personagens faz com que também queiramos protegê-los da verdade, para que eles não sofram”, relembrou.
A debatedora salientou que esta é uma situação em que todos já se viram inseridos, mas que, apesar de a mentira consolar, poupar as pessoas da verdade, por mais dolorosa que ela seja, também pode trazer graves danos, como impedir o autodesenvolvimento e o amadurecimento. “Acho que hoje nós temos mecanismos para lidar melhor com a verdade e com a dor que ela pode trazer. A verdade, apesar de ser dolorosa, é estruturante e organiza o nosso mundo interno, acho que esse é o dilema do filme e nosso também. O que sustenta mais a vida, uma verdade que dói ou uma mentira que consola?”
Ausência
Segundo Josias Theofilo, o filme é baseado na ausência e é este o motivo que faz com que o nome da pessoa morta seja o mesmo que nomeia o longa. O cineasta define que a sétima arte tem o poder de refletir realidades psicológicas e, parafraseando o diretor de cinema Alfred Hitchcock, salientou que “o cinema é a vida sem as partes chatas.”
Conforme Theofilo sugere, o cinema está vivendo uma crise de identidade e o filme em questão mostra as tendências de retorno ao passado cada vez mais evidentes, algo que vem sendo observado na sociedade ao fazer fotografias com câmeras analógicas, filmagens em películas ou dirigir carros antigos.
“Isso é uma tendência, porque o desenvolvimento tecnológico chegou a um tal ponto que a gente é capaz de se perder ali no meio. Stephen Zweig escreveu um livro sobre o mundo antes da Primeira Guerra Mundial e ele diz que foi a partir dela que as pessoas começaram a precisar se identificar na entrada dos países. Um grande momento de ruptura que está sendo representado em Frantz. Entretanto, este é um filme que mostra todo um mundo de delicadeza que nós, de certa forma, perdemos. Então acho que esse é o grande mérito dele”, complementou.
Conflito
Finalizando as apresentações, Wimer Bottura reforçou que o filme retrata os diferentes conflitos entre os personagens envolvidos na trama e as situações em que estão inseridos. O médico destacou que a guerra traz danos irreparáveis e que não há argumentos lógicos que possam justificá-las.
“Se as pessoas se conhecessem mais, elas se matariam menos. A guerra é uma obra de velhos em que se morrem os jovens e o que me fez escolher esse filme foi que ele tem algumas frases de uma sabedoria que as pessoas precisam ouvir” concluiu o coordenador do Cine Debate.
Fotos: Divulgação

