Hantavírus não representa emergência sanitária, descreve especialista

Infecção não configura risco de uma nova pandemia, mas número de casos pode aumentar, diz OMS

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Nos últimos dias, a notícia de um surto de hantavírus a bordo do navio de cruzeiro MV Hondius, operado pela Oceanwide Expeditions, acendeu sinal de alerta para populações de diferentes regiões do mundo. A embarcação, que saiu da cidade de Ushuaia, no sul da Argentina, no dia 1º de abril, levava 147 pessoas (88 passageiros e 59 tripulantes) de 23 diferentes nacionalidades. Delas, três morreram a bordo e a Organização Mundial da Saúde (OMS) reportou outros 11 casos ligados à cepa Andes, que estava em circulação no navio – nove confirmados e dois suspeitos.

No entanto, a OMS descarta a possibilidade de um surto maior, apesar de o diretor-geral da Agência, Tedros Adhanom Ghebreyesus, reconhecer que podem surgir novos casos nos próximos dias, por conta do período de incubação da doença. Ele recomenda que nos países em que há suspeita de infecção, os pacientes fiquem de quarentena por um período de 42 dias.

Segundo o pediatra e infectologista Renato Kfouri, o risco de o hantavírus se configurar como uma nova pandemia é praticamente nulo, pelo fato de ser uma doença de difícil transmissão respiratória. “Os vírus pandêmicos têm essa característica mais rápida de dispersão, mas não é este o caso, mesmo nessa variante, que tem potencial de transmissão entre seres humanos, a transmissibilidade é muito baixa, então precisa de um convívio muito íntimo e prolongado para se conseguir uma transmissão.”

O hantavírus
No Brasil, o Ministério da Saúde considera o hantavírus como uma doença endêmica, ou seja, que está circulando de maneira contínua em diferentes regiões, mas principalmente em áreas rurais, e a maior parte do contágio está associada à inalação de aerossóis formados pela urina, fezes e saliva de roedores infectados. Outras formas de transmissão também são possíveis, como escoriações cutâneas ou mordidas de ratos, contato do vírus com mucosas por meio de mãos contaminadas com excreções de roedores e transmissão de pessoa para pessoa (como ocorre na cepa andina).

A pasta demonstra que no decorrer deste ano, foram registrados sete casos de hantavirose no território nacional, com a notificação de uma morte, mas que não estão associados ao Hantavírus Andes, já que não houve registros de sua circulação no País.

“A maior parte dos hantavírus que circulam são de transmissão por roedores, então a possibilidade não é de um vírus com potencial pandêmico, como a Covid-19, que tem transmissão respiratória. Os pacientes infectados, obviamente, precisam ser monitorados nas consequências do vírus, com hidratação e suporte cardiorrespiratório, que é onde a doença se manifesta mais”, explica Kfouri.

Pacientes infectados podem apresentar quadros de febre, dor nas articulações, de cabeça, lombar, abdominal e sintomas gastrointestinais. Quando evolui para problemas cardiopulmonares, a doença se manifesta por meio de febre, dificuldade de respiração ou respiração acelerada, além de aceleração dos batimentos cardíacos, tosse seca e pressão baixa. Possui uma alta taxa de letalidade e sua evolução é rápida e progressiva.

Apesar de não haver um tratamento específico, Renato Kfouri explica como é possível realizar o cuidado: “Não há complicações ou sequelas importantes diretamente relacionadas ao vírus em si, mas sim às condições cardíacas e pulmonares afetadas, então o tratamento vai depender disso. Nós precisamos, obviamente, sempre ter testes disponíveis para diagnóstico em hospitais, mas, em termos populacionais, isso está longe de ser um problema de saúde pública para o Brasil. Não se trata de uma emergência sanitária para enfrentamento desses casos, que já ocorrem naturalmente no País”.

O Ministério da Saúde recomenda algumas medidas de prevenção, como roçar o terreno em volta do domicílio, destinar adequadamente entulhos, manter alimentos estocados em recipientes fechados e à prova de roedores, evitar contato com roedores silvestres e realizar a limpeza contínua de ambientes fechados, tomando cuidado com a poeira que pode se dissipar neste processo.

Sobre os passageiros e tripulantes do navio MV Hondius, a missão de repatriação terminou na noite de ontem, 11 de maio, em Tenerife, na Espanha, quando eles deixaram a embarcação usando equipamentos de proteção especiais e completos. Agora, o barco seguirá para a Holanda, país da empresa que controla o navio, para passar por procedimentos de limpeza e desinfecção. Os pacientes que tiveram a infecção confirmada estão internados, mas estáveis.