A trajetória da pediatra e gastroenterologista pediátrica Luciana Rodrigues Silva reúne décadas de atuação na assistência, no ensino, na pesquisa e na gestão. Desde o início de 2021, é a 1ª vicepresidente da Associação Médica Brasileira (AMB), tendo assumido interinamente a Presidência da entidade em julho deste ano, em razão do afastamento temporário do presidente César Eduardo Fernandes durante a campanha eleitoral para deputado federal.
É professora Titular no Serviço de Gastroenterologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA), coordenadora Científica adjunta da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), membro da Academia Brasileira de Pediatria e da Academia de Medicina da Bahia. Além da atuação na Diretoria da AMB, coordena ações relacionadas à equidade de gênero e integra a Comissão Nacional das Mulheres Médicas (Conadem), com iniciativas voltadas à liderança feminina, à carreira e à valorização das médicas brasileiras.
Luciana nasceu em São Paulo, em 1954, e mudou para a Bahia ainda criança. Em 1978, se formou em Medicina pela UFBA e, posteriormente, realizou residência médica em Pediatria, além de mestrado e doutorado na mesma instituição.
Sua atuação na Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) também ocupa lugar de destaque nessa trajetória. Depois de exercer duas vezes a vicepresidência da entidade e comandar, por três mandatos, o Departamento Científico de Gastroenterologia, Luciana se tornou, em 2016, a primeira mulher a presidir a SBP, sendo reeleita em 2019. Durante suas gestões, criou a Rede Integrada entre as filiadas e ampliou as iniciativas de disseminação do conhecimento científico, com a criação de cursos de educação a distância (EAD).
Desenvolvimento e futuro
A experiência acumulada ao longo da carreira também influencia sua visão sobre a formação médica. Para a pediatra, os obstáculos encontrados nos diferentes campos de atuação contribuíram para o seu desenvolvimento profissional. “Enfrentei vários desafios na formação médica e também no exercício da Medicina, na assistência, no ensino, na gestão e na pesquisa. Mas todos sempre serviram de aprendizado e reflexão para o meu aperfeiçoamento pessoal”, afirma.
A presença de referências ao longo da formação é outro aspecto que considera importante. Filha de médicos, ela teve nos pais e nos professores exemplos que contribuíram para o seu desenvolvimento pessoal e profissional. “Mais tarde, como professora e mentora, passei a desempenhar um papel semelhante na formação dos jovens”, lembra.
Ela acredita que as transformações tecnológicas vêm modificando a Medicina em ritmo acelerado, com novos métodos diagnósticos e terapêuticos, além de recursos aplicados nas diferentes áreas. “No entanto, a conexão entre médico e paciente precisa se manter de modo absoluto. Anamnese, exame físico, raciocínio clínico e empatia continuam sendo elementos essenciais para o cuidado. A evolução tecnológica amplia recursos disponíveis, mas não substitui a dimensão humana da Medicina”, pontua.
Para Luciana Rodrigues Silva, a Pediatria é uma área muito ampla e vem se desenvolvendo continuamente. Entre os campos que apresentam avanços estão a Genética, a Imunologia, a Saúde mental, as doenças crônicas e as pesquisas necessárias para o desenvolvimento de novos medicamentos. “A Pediatria é cada vez mais importante, e o futuro das nações pertence às crianças e aos adolescentes, uma vez que o pediatra é o único capacitado para acompanhar esses indivíduos em constante crescimento”, acrescenta.
A ampliação da participação feminina nos espaços de liderança é outro tema que a médica tem se dedicado. De acordo com ela, as mulheres médicas ainda enfrentam obstáculos relacionados a questões culturais e preconceitos que dificultam sua chegada a posições de comando.
“Essa situação precisa mudar. É necessário identificar e conscientizar sobre o assédio e privilégios. É indispensável que instituições, escolas, hospitais e entidades tenham gestores sensíveis para reconhecer o valioso papel da mulher no trabalho médico e nas posições de liderança. É fundamental criar grupos de ouvidoria e mentoria que apoiem mulheres médicas, sobretudo, nos períodos de gestação e amamentação. O suporte familiar dos companheiros é indispensável, e as mulheres devem ter as mesmas oportunidades de trabalho que os homens, em função do potencial que elas têm”, destaca.
E complementa que a presença feminina nas posições de liderança ainda precisa avançar. “Atualmente, as mulheres ocupam cerca de 20% desses espaços. Estudos inéditos desenvolvidos pelo nosso grupo na AMB têm contribuído para reunir dados e ampliar a reflexão sobre o tema. Necessitamos desta ampliação, com mais participação feminina em posições de liderança”, conclui.
Matéria publicada na edição 758 (Setembro/Outubro de 2026) da Revista da APM