Mais médicos, menos qualidade

Esses profissionais mal preparados colocam em risco a vida de milhões de brasileiros, especialmente no SUS, onde a população mais vulnerável depende deles

O que diz a mídia

Em um país afogado em escândalos que envolvem desvios bilionários e um alto grau de deterioração institucional, como no caso do Banco Master, a maior fraude da história do Brasil, um problema igualmente grave passa despercebido: a crise nas faculdades de medicina. Trata-se de um verdadeiro absurdo, que deveria indignar a sociedade inteira, mobilizando protestos e reformas urgentes. Porém, ele é eclipsado por narrativas mais “espetaculares” de propinas e conchavos políticos.

A verdade é que a corrupção também está na raiz na formação de médicos no país, que saem das universidades sem saber medir a pressão arterial ou diagnosticas doenças simples. Esses profissionais mal preparados colocam em risco a vida de milhões de brasileiros, especialmente no SUS, onde a população mais vulnerável depende deles. Essa situação não é acidental: é fruto de políticas equivocadas, esquemas ilícitos, má fiscalização, interesses privados e uma expansão predatória, que prioriza lucros sobre qualidade.

Tudo começou em 2013, com a Lei 12.871, que instituiu o Programa Mais Médicos. Lançado pelo governo Dilma Rousseff para suprir a carência de profissionais em regiões remotas, o programa acabou incentivando uma expansão sem critérios dos cursos de medicina. De 2013 a 2023, o número de vagas em universidades muitas vezes temerárias dobrou, passando de cerca de 20 mil para mais de 40 mil anualmente. A maioria dessas vagas surgiu de forma desregrada, muitas vezes visando beneficiar prefeitos e políticos locais – alguns deles donos de faculdade ou sócios de conglomerados de escolas médicas saltou de 252 para 505, 77% delas particulares e em municípios minúsculos, sem infraestrutura como hospitais de ensino ou leitos suficientes.

Especialistas alertam que a interiorização ignorou a capacidade local de formação, levando a saturação de campos de prática e precarização do ensino. O Fies, criado no governo Lula em 1999 foi expandido exponencialmente nos anos subsequentes, se tornando o combustível dessa máquina malévola. Esse instrumento de financiamento estudantil injetou bilhões em faculdades de baixa qualidade, permitindo que alunos de famílias modestas acessassem cursos caros, mas sem garantia de uma qualidade mínima. Em 2024, praticamente metade das matrículas financiadas pelo Fies em medicina – 9.394 de 19.920 – estavam em cursos mal avaliados, que recebiam um total de R$ 3,7 bilhões.

No caso do Prouni, 41% dos beneficiários em cursos de medicina estavam matriculados em faculdades de pior desempenho.

Uma distorção como esta perpetua desigualdades e alimenta um ciclo vicioso no qual universidades medíocres formam médicos ruins, que depois sobrecarregam o sistema de saúde. Mas a origem desse problema é mais fundo e nasce na educação básica lamentável, com alunos chegando ao ensino superior sem bases sólidas em matemática, português e ciências. Há também um número cada vez mais baixo de professores realmente qualificados para a função. Assim, as faculdades de medicina se tornam meras “fábricas de diplomas”.

Os resultados do Enamed (Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica), aplicado pela primeira vez em 2025 e divulgados em janeiro, escancaram o desastre. De 351 cursos avaliados, 107 (30,7%) receberam notas 1 ou 2, consideradas insatisfatórias, com menos de 60% dos alunos atingindo de proficiência mínima. Faculdades privadas criadas depois de 2013, em cidades com menos de 300 mil habitantes, concentram os piores desempenhos.

O MEC reagiu e revogou, esta semana, o edital de 2023 que permitia a criação de novos cursos de medicina. Numa decisão acertada, o ministro Camilo Santana também anunciou que instituições com notas 1 e 2 não terão o Fies em 2026 enquanto não implementarem as devidas melhorias. O CFM, por sua vez, estuda barrar o registro profissional dos 13 mil egressos de cursos considerados ruins, usando o Enamed como critério.

Porém, nada se falou sobre um problema seríssimo que envolve a formação de médicos no país: o descompasso entre o aumento no número de formandos e as vagas em residência médica, que não cresceram na mesma proporção e hoje não atendem sequer a metade dos recém-formados. Cerca de 40% dos médicos brasileiros em atuação não fizeram residência, algo obrigatório em vários países para o exercício da atividade clínica.

Enfim, a polêmica explodiu: faculdades contestaram os resultados na Justiça, alegando erros no cálculo, mas o Inep negou inconsistências. Diante desse caos, surgiram propostas de resolução, mas elas enfrentam resistências. A principal é o Profimed (Exame Nacional de Proficiência em Medicina), inspirado na prova da OAB, obrigatório para registro nos CRMs. O PL 2.294/2024, que avança no Senado, prevê aplicação de uma prova duas vezes ao ano pelo CFM, avaliando conhecimentos teóricos, habilidades clínicas e ética médica. Outras ideias incluem moratória na abertura de novos cursos até 2030, para focar em qualidade, expansão de residências médicas, fiscalização rigorosa do MEC, investimento em hospitais de ensino e combate ao desvio de verbas públicas.

A fraude do Banco Master e a precariedade das escolas médicas são sintomas da mesma doença. É inadmissível que até a saúde no Brasil seja refém de esquemas ilícitos e de conluios econômicos. A corrupção que assola o nosso país não só rouba recursos, mas afeta vidas. A sociedade deve pressionar o Congresso pelo Profimed, exigir transparência no Fies e cobrar punição aos donos de faculdades de fachada. Sem indignação, continuaremos produzindo “médicos de papel”, enquanto a população agoniza. É hora de priorizar qualidade sobre quantidade, ou pagaremos com a saúde de gerações.

Ana Maria Diniz é fundadora do Instituto Península, que atua na formação de professores; empresária e conselheira do Todos pela Educação e Parceiros pela Educação.

Fonte: Valor Econômico