Médica do futuro

A luta de Carlota Pereira de Queirós pelo direito das mulheres fez com que ela se tornasse a primeira deputada federal do País, um símbolo de determinação e resistência

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A edição de janeiro/fevereiro de 2020 da Revista da APM consagra o nome de Carlota Pereira de Queirós como uma das figuras que contribuíram para marcar a história da Medicina nos últimos 90 anos. Dona de uma personalidade forte, repleta de coragem e garra, a médica desafiou os estigmas da sociedade de sua época e foi uma mulher à frente de seu tempo.

Paulista, nasceu no dia 13 de fevereiro de 1892, vinda de uma influente família de fazendeiros e políticos. Em 1920, aos 28 anos, se formou professora para ajudar a família que passava por dificuldades financeiras – naquela época, atuar na educação infantil era umas das únicas opções de trabalho para mulheres, uma vez que a profissão era vista como uma extensão aos cuidados que elas tinham com o próprio lar.

Completamente envolvida com as questões educacionais que o País enfrentava, Carlota lutava por um sistema de ensino mais democrático e inclusivo, em que todas as pessoas poderiam ter a oportunidade de estudar e aprender. No entanto, por não ver perspectivas para o seu futuro estando nesta área, abandonou aos poucos a carreira pedagógica, mas continuou dando aulas particulares para manter sua independência econômica.

Ainda em 1920, ingressou na Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo. Em 1923, se mudou para o Rio de Janeiro, onde continuou os estudos na Faculdade de Medicina e conheceu Miguel Couto, médico de ideias progressistas que, além de seu professor, apoiava e impulsionava seus princípios.

Carlota se formou em 1926, defendendo a tese “Estudos sobre o Câncer”, atuação que lhe garantiu o Prêmio Miguel Couto e abriu portas para um futuro promissor. Resultado disso é o fato de que, no mesmo ano, se tornou diretora da Escola das Mãezinhas do Hospital Artur Bernardes, também no Rio. Em 1928, assumiu a chefia do laboratório de Clínica Pediátrica da Faculdade de Medicina de São Paulo.

No ano seguinte, 1929, comissionada pelo governo paulista, viajou para a Suíça com o objetivo de estudar dietética infantil em centros médicos europeus. Carlota passou também pela França e pela Alemanha e foi durante essas viagens que teve a possibilidade de fazer cursos de aperfeiçoamento na área, além de trabalhar com profissionais renomados.

Guerra e Política
Quando eclodiu a Revolução Constitucionalista, em 1932 – declarada por São Paulo contra o resto do País, em oposição ao governo de Getúlio Vargas –, a médica organizou um grupo com cerca de 700 mulheres cujo objetivo era prestar assistência e oferecer cuidados aos soldados feridos, em parceria com a Cruz Vermelha Paulista.

Sua notável participação na Revolução, a incansável luta por democracia e igualdade, e seus ponderosos trabalhos como médica impulsionaram a eleição de Carlota como a primeira, e até então única, deputada federal da história do Brasil, em 1934.

Durante o seu mandato, ela defendeu os diretos das mulheres (lutando para que elas passassem a ser mais respeitadas dentro da sociedade) e das crianças; trabalhou por melhorias na educação; buscou o fim da miséria; foi a responsável pela criação do primeiro projeto sobre serviços sociais no Brasil; e integrou a Comissão de Saúde e Educação, com foco na alfabetização e na assistência social.

Carlota Pereira de Queirós também publicou uma série de artigos que buscavam valorizar a vida da mulher brasileira. Seu mandato como deputada durou até 1937, ano em que Getúlio Vargas fechou o Congresso e instaurou o Estado Novo.

Patronese da Cadeira nº 71 da Academia de Medicina de São Paulo e primeira médica honorária da Academia Nacional de Medicina, também foi membro de diversas outras sociedades médicas durante sua carreira, como a Association Française pour l’Étude du Cancer e a Academia Nacional de Medicina de Buenos Aires, além de ter fundado a Academia Brasileira de Mulheres Médicas, em 1950.

Atuou na Medicina durante toda a sua vida e morreu aos 90 anos, em 1982, em São Paulo, sua cidade natal. Na Praça Califórnia, no Jardim América (Zona Oeste da capital paulista), é possível observar um monumento que homenageia Carlota Pereira de Queirós. Uma avenida no Jardim das Palmeiras, na Zona Sul, e uma Escola Municipal de Educação Infantil (EMEI), em Cidade Tiradentes, na Zona Leste, também têm o seu nome.

Matéria publicada na edição 717 (Janeiro de 2020) da Revista da APM
Foto: Fundação Ulysses Guimarães / Arquivo Nacional / BBustos Fotografia