Maioria das intervenções complementares na reprodução assistida não tem eficácia comprovada
Revisão sistemática com metanálise que avaliou a segurança e a eficácia de 10 intervenções complementares à fertilização in vitro amplamente utilizadas na prática clínica mostra que a maioria não tem eficácia comprovada para o nascimento de bebês saudáveis. O estudo foi conduzido pela Dra. Sarah Lensen, Ph.D., e seus colaboradores da University of Melbourne, na Austrália, e foi publicado em julho no periódico The Lancet Obstetrics, Gynaecology & Women’s Health.
A pesquisa avaliou 10 intervenções complementares e as organizou em três grupos de acordo com a qualidade das evidências disponíveis. No Brasil, várias delas já fazem parte da prática clínica, como o teste genético pré-implantacional para pesquisa de aneuploidias (PGT-A), os testes de receptividade endometrial, o plasma rico em plaquetas e as técnicas de seleção espermática.
Apenas um procedimento apresentou possível associação com aumento na taxa de nascidos vivos. A raspagem endometrial, que consiste em uma pequena lesão no endométrio antes da transferência embrionária, foi o único com resultado favorável, reunindo 19 ensaios clínicos randomizados e razão de chances de 1,20 (intervalo de confiança [IC] 95% de 1,02 a 1,41; p = 0,02), com certeza de evidência moderada.
Quatro intervenções complementares não tiveram efeito nas taxas de nascidos vivos. Entre elas está o PGT-A, um dos procedimentos mais difundidos e mais caros da reprodução assistida, com razão de chances de 1,16 (IC 95% de 0,91 a 1,47) e certeza moderada. O teste de receptividade endometrial, o EmbryoGlue e os corticosteroides completam esse grupo, todos sem benefício comprovado para o desfecho primário.
Os cinco restantes ficaram em um território ainda mais incerto. As evidências disponíveis respaldando a Physiological Intra-Cytoplasmic Sperm Injection (PICSI), a acupuntura, o Intralipid e o plasma rico em plaquetas aplicado tanto no ovário quanto no útero são insuficientes para qualquer conclusão. É justamente sobre a PICSI que o Dr. Marcos Cabello, ginecologista, obstetra e diretor da Associação Paulista de Medicina (APM), chama a atenção. “Ela apresentou uma possível redução da taxa de aborto, mas isso não equivale necessariamente a um aumento comprovado da taxa de nascidos vivos”, disse ao Medscape.
Faltam estudos confiáveis
De 12.398 estudos identificados sobre procedimentos adicionais à fertilização in vitro, apenas 85 passaram pelos critérios de confiabilidade desta que foi a maior revisão já realizada sobre o tema. Outros 72 estudos potencialmente elegíveis foram excluídos por problemas metodológicos, entre eles a ausência de registro prospectivo. Análises citadas pelos próprios autores indicam que até metade dos ensaios clínicos em medicina reprodutiva não são registrados ou levantam dúvidas de confiabilidade.
O dado dos 72 estudos excluídos é mais do que uma nota metodológica. Ele revela um problema estrutural na literatura de reprodução assistida que o Dr. Marcos reconhece na prática clínica. “A inovação nas técnicas de reprodução assistida é fundamental, mas é indispensável avaliar a confiabilidade dos estudos. Não basta acumular um elevado volume de publicações; é preciso analisar a qualidade metodológica e se aquele resultado realmente traz benefício clínico para o paciente”, afirmou.
Para o especialista, o problema central não é a existência das intervenções complementares, mas a forma como chegam ao consultório. “A grande questão é quando uma técnica ainda experimental, ou mesmo com poucas evidências científicas de eficácia, passa a ser oferecida como comprovada e como eficaz. O que vemos na prática é que técnicas com pouca comprovação vêm sendo oferecidas sem uma explicação importante, transparente e acessível aos pacientes”, disse.
A oferta repetida de novos procedimentos a pacientes que já estão em um tratamento complexo cria um risco adicional que o Dr. Marcos identifica com clareza. “A mudança frequente de protocolos não garante maior sucesso e pode gerar uma falsa sensação de controle. Técnicas com nomes comerciais atraentes, mas sem [respaldo de] consenso científico sólido, nem sempre resultam em melhores desfechos clínicos”, afirmou.
Lacunas regulatórias
No cenário regulatório brasileiro, a Resolução nº 2.320/2022 do Conselho Federal de Medicina (CFM) não estabelece normas específicas para cada intervenção complementar à fertilização in vitro, mas define os princípios que devem orientar qualquer procedimento em reprodução assistida.
O Dr. Waldemar Naves do Amaral, ginecologista, obstetra e coordenador da Câmara Técnica de Reprodução Assistida do CFM, explica que a ausência de regulamentação específica não representa um vazio. “O CFM não possui uma regulamentação específica sobre os chamados ‘add-ons’ da fertilização in vitro. No entanto, as normas determinam que os procedimentos sejam conduzidos com base em princípios éticos, bioéticos, de segurança e eficácia”, disse ao Medscape.
Para o médico que atua em reprodução assistida, o estudo oferece uma base concreta para a conversa no consultório. Antes de indicar qualquer intervenção complementar, vale verificar em qual dos três grupos o procedimento se enquadra, se há evidências favoráveis, se houve efeito ou se as evidências simplesmente são insuficientes para qualquer conclusão.
Vale analisar também se o procedimento levou ao aumento da taxa de nascidos vivos ou se houve apenas melhora de marcadores intermediários, e se os custos adicionais e os riscos são proporcionais aos benefícios observados nos estudos. Quando ainda não há evidências consolidadas, o Dr. Marcos defende uma postura clara. “O cenário ideal é oferecer essa intervenção dentro de ensaios clínicos estruturados e aprovados por comitês de ética, garantindo critérios rigorosos e transparência”, disse.
A revisão não encerra o debate sobre as intervenções complementares à fertilização in vitro, mas recusa com veemência a possibilidade de tratá-los como um grupo uniforme de recursos com eficácia presumida. Para cada procedimento, há agora uma classificação baseada em evidências, e ignorá-la é uma escolha que o médico precisará justificar, sobretudo para os pacientes.
Fonte: Medscape – confira aqui