Boletim Epidemiológico divulgado pelo Ministério da Saúde apresenta um panorama detalhado das Doenças e Agravos Relacionados ao Trabalho (Dart) referente ao primeiro semestre do ano passado. Entre janeiro e junho, foram registradas 340.701 notificações.
Deste total, os acidentes de trabalho são predominantes, correspondendo a 76,9% das ocorrências, seguidos por acidentes com exposição a material biológico (12,3%) e acidentes com animais peçonhentos (4,3%). Os transtornos e as doenças respondem por 3,1% das notificações; as intoxicações exógenas por 1,9%; e os casos de violências correspondem a 1,7%.
Essa distribuição do quantitativo de notificações por tipo de Dart, em partes, é verificada, pois os acidentes de trabalho de caráter agudo tendem a ser mais prontamente identificados nos serviços de Saúde, o que favorece a sua notificação. Já a divergência entre o alto volume de acidentes e o menor registro de doenças crônicas é explicada pela natureza dos eventos.
Enquanto os acidentes são agravos agudos, de fácil identificação imediata nos serviços de Saúde, as doenças e transtornos possuem caráter crônico e manifestam-se após longos períodos de exposição. Essa característica, somada à dificuldade técnica de estabelecer o nexo entre o trabalho e a patologia, gera uma barreira significativa para o diagnóstico e favorece a subnotificação.
Regionalmente, São Paulo e Rio Grande do Sul lideram em números absolutos, mas a análise por incidência revela que Roraima e Rio Grande do Sul possuem as maiores taxas proporcionais, com destaque para o setor de construção civil e o comércio no estado nortista, e a indústria e Saúde no território gaúcho.
Dados demográficos
Os dados demográficos expõem vulnerabilidades sociais. Os acidentes e as intoxicações atingem majoritariamente homens entre 25 e 39 anos, com forte predominância de trabalhadores negros (pretos e pardos). Por outro lado, a violência no ambiente de trabalho é um agravo majoritariamente feminino, atingindo 69,1% das notificações entre mulheres de 25 a 59 anos.
Outro ponto crítico é a situação no mercado de trabalho: 62,5% das notificações ocorrem em vínculos formais, o que sugere que o setor informal ainda carece de mecanismos eficientes de vigilância e notificação.
Em termos setoriais, os grupos de ocupação mais afetados variam conforme a natureza do risco. A produção de bens industriais concentra o maior volume de acidentes típicos, perdas auditivas e pneumoconioses, enquanto o setor de Saúde, especificamente técnicos de Enfermagem, é o mais vulnerável a acidentes biológicos.
No campo, a agricultura e a pecuária apresentam índices preocupantes de câncer relacionado ao trabalho e dermatoses ocupacionais, evidenciando o perigo da exposição a substâncias químicas. Apesar da rede hospitalar ser a principal porta de entrada para casos agudos, os Centros de Referência em Saúde do Trabalho (Cerest) mostram-se vitais para a detecção de casos complexos.