O frio daqui e o calor de lá

Não se trata de acontecimentos isolados, mas de manifestações de um sistema climático que está se tornando mais instável

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Está fazendo um frio mais intenso por aqui este ano, que começou antes mesmo do inverno. Cidades das regiões Sul e Sudeste registraram temperaturas inferiores a 10°C no mês de julho, com direito a geadas e sucessivos alertas meteorológicos. Quem não gosta do frio vai sentir um desconforto incomum para esta época do ano, já que há previsão de novas frentes frias, que devem derrubar ainda mais a temperatura.

Por outro lado, enquanto nos preocupamos em tirar os casacos do armário por aqui, nos Estados Unidos e em diversos países da Europa, o calor extremo vem dificultando a rotina. Em várias cidades, os termômetros ultrapassaram os 40°C no mesmo período. Em algumas delas, escolas foram fechadas, monumentos turísticos tiveram o acesso restringido, sistemas de transporte sofreram impactos e autoridades de Saúde orientaram a população a evitar atividades ao ar livre nos horários mais quentes. Essas medidas são apenas uma precaução diante dessa onda histórica de calor, que já deixou mais de 1.300 mortos na Europa.

Nem mesmo a Copa do Mundo ficou imune aos efeitos das mudanças climáticas. Um estudo divulgado antes da Copa do Mundo de 2026 concluiu que as mudanças climáticas aumentaram o risco de calor extremo em 97 das 104 partidas do torneio. A própria Fifa precisou adotar pausas obrigatórias para hidratação e protocolos especiais para proteger atletas e torcedores.

A comunidade científica vem alertando para essa tendência há décadas!

O aquecimento global não significa que todos os lugares ficarão continuamente mais quentes. O aumento da temperatura média do Planeta altera o funcionamento da atmosfera e dos oceanos, modifica a circulação das massas de ar e torna os eventos extremos mais frequentes e intensos.

É por isso que podemos observar, ao mesmo tempo, uma onda de frio rigorosa em uma região e uma onda de calor excepcional em outra. Não se trata de acontecimentos isolados, mas de manifestações de um sistema climático que está se tornando mais instável.

Ao mesmo tempo, também é verdade que o mundo não está parado!

A transição energética, tão almejada e necessária, vem avançando por meio de novas tecnologias e da incorporação de práticas mais sustentáveis, com o objetivo de reduzir a queima de combustíveis fósseis (petróleo, gás e carvão) em todo o mundo. Diversos
países também ampliam seus compromissos de redução das emissões de gases de efeito estufa, como vimos acontecer durante a COP-30.

Ainda assim, muitos desses importantes avanços são insuficientes diante da velocidade das mudanças observadas. Talvez este seja o nosso maior desafio: acelerar as soluções na mesma velocidade em que os problemas se apresentam.

Cabe a cada um de nós adotar medidas individuais mais conscientes, além de exercer a devida pressão sobre a sociedade e os governos para avançarmos na transição energética e na proteção e recuperação do meio ambiente.

Portanto, passar da consciência para a ação concreta é uma tarefa de cada um de nós, em nome da preservação da vida.

Gilberto Natalini, coordenador da Comissão dos Médicos pelo Meio Ambiente e pelo Clima da APM