Adriana Polachini do Valle (CRM-SP 67.317) e Paulo José Fortes Villas Boas (CRM-SP 57.032 / RQE-SP 68.213 e 127.836)
As mudanças climáticas constituem um dos principais desafios para a Saúde pública contemporânea. Entre suas manifestações mais relevantes destaca-se o aumento da frequência, intensidade e duração das ondas de calor, fenômeno associado ao crescimento de atendimentos de emergência, hospitalizações e óbitos em diferentes populações1.
Embora tradicionalmente relacionadas à exaustão térmica e à insolação, as altas temperaturas exercem efeitos sistêmicos que podem agravar doenças cardiovasculares, respiratórias, renais, metabólicas e neurológicas, ampliando significativamente a carga de morbidade e mortalidade associada ao calor extremo2.
Os impactos desses eventos não se distribuem de forma homogênea na população. Pessoas idosas, crianças, gestantes, indivíduos com doenças crônicas, trabalhadores expostos ao ambiente externo e populações em situação de vulnerabilidade social, como moradores de rua, apresentam maior risco de adoecimento e morte relacionados ao calor. O envelhecimento populacional, a urbanização acelerada e as desigualdades socioeconômicas podem potencializar ainda mais esses efeitos, tornando o enfrentamento do calor extremo um desafio crescente para os sistemas de Saúde3.
Nesse contexto, compreender os mecanismos pelos quais as ondas de calor afetam a Saúde humana e reconhecer os grupos mais vulneráveis torna-se fundamental para a prática clínica, o planejamento dos serviços de Saúde e a formulação de estratégias de adaptação às mudanças climáticas. Este artigo discute as principais evidências científicas sobre os impactos das ondas de calor na Saúde humana, destacando seus efeitos sobre diferentes grupos populacionais e os desafios que se impõem à assistência e à Saúde pública.
Como o calor afeta o organismo
O organismo humano dispõe de mecanismos de termorregulação capazes de manter a temperatura corporal relativamente constante. Durante períodos de calor intenso, ocorre aumento do fluxo sanguíneo cutâneo e da sudorese para favorecer a dissipação de calor.
Entretanto, quando a exposição é prolongada ou supera a capacidade adaptativa do indivíduo, esses mecanismos tornam-se insuficientes, resultando em desidratação, distúrbios hidroeletrolíticos e redução da perfusão tecidual, especialmente em pessoas com doenças crônicas e idosas4.
As consequências do estresse térmico repercutem sobre múltiplos sistemas orgânicos. A vasodilatação periférica e o aumento do débito cardíaco podem sobrecarregar o sistema cardiovascular, enquanto a redução do volume circulante compromete a perfusão renal e favorece lesão renal aguda. Além disso, alterações metabólicas e inflamatórias podem agravar doenças preexistentes, contribuindo para o aumento de atendimentos de emergência, hospitalizações e mortalidade observados durante eventos de calor extremo5-7
Muito além da insolação
Os impactos das ondas de calor vão muito além dos quadros clássicos de estresse térmico, refletindo-se em aumento expressivo da demanda por serviços de Saúde, hospitalizações e mortalidade.
Uma revisão sistemática mostrou que as ondas de calor estão consistentemente associadas ao aumento das admissões em serviços de emergência, especialmente por agravamento de doenças crônicas, eventos traumáticos e condições relacionadas ao calor. O impacto é particularmente importante entre pessoas idosas, indivíduos com doenças pré-existentes e populações socialmente vulneráveis, que apresentam menor capacidade de adaptação aos extremos de temperatura8.
Os efeitos também impactam o ambiente hospitalar. Em Portugal, um estudo envolvendo mais de 12 milhões de internações identificou aumento significativo das admissões durante períodos de onda de calor em todas as faixas etárias e em diferentes grupos de doenças. Entre as condições mais afetadas destacaram-se doenças respiratórias, cardiovasculares, infecciosas, metabólicas e transtornos mentais9.
Resultados semelhantes foram observados na Espanha, onde altas temperaturas estiveram associadas ao aumento de internações por insuficiência renal, infecções urinárias, sepse, doenças metabólicas e outros agravos clínicos. Esses achados reforçam que o calor extremo atua como um importante fator desencadeante ou agravante de diversas condições de Saúde, afetando múltiplos sistemas orgânicos10.
Além do aumento da morbidade, as ondas de calor estão associadas ao aumento da mortalidade, especialmente entre pessoas idosas, indivíduos com doenças cardiovasculares, respiratórias e renais, e populações em situação de vulnerabilidade social11.
Quem sofre mais
Embora as ondas de calor possam afetar toda a população, seus impactos são mais intensos em grupos com menor capacidade de adaptação fisiológica ou maior vulnerabilidade social.
Entre eles, destacam-se as pessoas idosas, cuja redução da capacidade de termorregulação, menor percepção da sede, presença de múltiplas doenças crônicas e uso frequente de medicamentos aumentam o risco de desidratação, hospitalizações e óbitos. Os medicamentos mais associados a estes quadros incluem antipsicóticos, betabloqueadores, diuréticos, laxantes, anti-histamínicos e anti-hipertensivos12.
Além disso, pessoas idosas com mobilidade reduzida têm capacidade limitada de se proteger durante eventos climáticos extremos e as com comprometimento cognitivo têm menor capacidade de compreender e seguir as recomendações de saúde13.
Estudo realizado no Estado de São Paulo identificou aumento significativo das hospitalizações e da mortalidade cardiorrespiratória nessa faixa etária durante ondas de calor, com importantes desigualdades regionais. As regiões classificadas como mais vulneráveis apresentaram riscos de mortalidade até 75% superiores aos observados em áreas menos vulneráveis, evidenciando que fatores sociais, condições de saneamento e capacidade dos serviços de saúde influenciam diretamente os impactos do calor extremo sobre a Saúde dessa população13.
As crianças também apresentam elevada suscetibilidade aos extremos de temperatura devido à imaturidade dos mecanismos de termorregulação e à dependência de cuidados para hidratação e proteção ambiental. Em um estudo nacional envolvendo mais de um milhão de óbitos em menores de cinco anos, tanto o calor quanto o frio extremo estiveram associados ao aumento da mortalidade infantil, especialmente por doenças infecciosas, diarreicas e respiratórias14.
Outros grupos igualmente vulneráveis incluem gestantes, trabalhadores expostos ao ambiente externo e pessoas com doenças crônicas. A exposição ao calor extremo tem sido associada ao aumento do risco de parto pré-termo e parto em idade gestacional precoce 15, enquanto trabalhadores expostos a altas temperaturas apresentam maior risco de agravos relacionados ao calor, acidentes ocupacionais e complicações cardiovasculares, renais e metabólicas 16.
Da mesma forma, indivíduos com insuficiência cardíaca, doença pulmonar obstrutiva crônica, diabetes mellitus e doença renal apresentam maior probabilidade de descompensação clínica durante eventos de calor extremo. Revisões sistemáticas apontam que doenças cardiovasculares, respiratórias, renais e metabólicas figuram entre os agravos mais frequentemente associados às ondas de calor3.
O reconhecimento desses grupos vulneráveis é fundamental para orientar medidas preventivas e fortalecer a capacidade de resposta dos serviços de Saúde diante de eventos extremos de temperatura.
O que isso significa para a prática médica
O aumento da frequência e da intensidade das ondas de calor impõe novos desafios à prática médica e aos sistemas de Saúde. Embora os efeitos do calor extremo sejam frequentemente associados a quadros clássicos de exaustão térmica e insolação, a maior parte da carga assistencial decorre do agravamento de doenças crônicas e de condições clínicas preexistentes.
Nesse contexto, torna-se fundamental que os profissionais de Saúde reconheçam precocemente os sinais de estresse térmico e identifiquem pacientes com maior risco de complicações. A avaliação clínica durante períodos de calor intenso deve incluir atenção especial aos sinais de desidratação, alterações do estado mental, hipotensão, distúrbios hidroeletrolíticos e descompensações cardiovasculares, respiratórias e renais.
Pessoas idosas, portadores de doenças crônicas, gestantes, crianças, trabalhadores expostos a altas temperaturas e indivíduos em situação de vulnerabilidade social merecem acompanhamento mais cuidadoso, especialmente durante eventos prolongados de calor extremo.
A orientação preventiva também assume papel central na prática clínica durante períodos de calor intenso. Recomendações relacionadas à hidratação adequada, redução da exposição ao calor nos horários mais quentes do dia, manutenção de ambientes ventilados e reconhecimento precoce de sintomas devem fazer parte da rotina assistencial, particularmente para pacientes mais vulneráveis17. Em alguns casos, pode ser necessário revisar esquemas terapêuticos e monitorar com maior frequência indivíduos com doenças cardiovasculares, renais ou metabólicas. Da mesma forma, familiares e cuidadores devem ser orientados a reconhecer sinais precoces de descompensação clínica relacionados ao estresse térmico.
Do ponto de vista dos serviços de Saúde, as ondas de calor devem ser incorporadas ao planejamento assistencial de forma semelhante a outros eventos climáticos extremos. Sistemas de vigilância, protocolos de alerta, ampliação da capacidade de atendimento em períodos críticos e ações intersetoriais voltadas à proteção das populações vulneráveis podem contribuir para reduzir os impactos sobre a morbidade e a mortalidade. À medida que os eventos de calor extremo se tornam mais frequentes, a adaptação dos sistemas de Saúde deixa de ser uma medida opcional e passa a constituir uma necessidade para a proteção da Saúde da população.
Conclusão
As ondas de calor representam um desafio crescente para a Saúde pública e para a prática médica. Seus impactos extrapolam os quadros clássicos de insolação e contribuem para o aumento de hospitalizações e mortes por diversas doenças, especialmente entre idosos e outros grupos vulneráveis.
Evidências recentes demonstram que esses efeitos são potencializados por desigualdades sociais e pela capacidade de resposta dos sistemas de Saúde, produzindo importantes diferenças regionais no risco de adoecimento e morte.
Nesse contexto, fortalecer ações preventivas, sistemas de alerta e estratégias de adaptação climática torna-se fundamental para proteger a Saúde da população diante do avanço das mudanças climáticas.
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