Neste mês dos médicos, a Revista da APM passa a publicar um perfil dos grandes nomes que ajudaram a construir a história da Medicina nos últimos anos. Além da homenagem à profissão, a série traçará um caminho – iniciado na década de 1930, ano de fundação da Associação Paulista de Medicina – para os 90 anos da APM, que serão comemorados em novembro de 2020.
O primeiro nome escolhido é de uma figura muito relevante para a Medicina paulista e nacional. Patrono da Cadeira nº 29 da Academia de Medicina de São Paulo, instituição em que ingressou com apenas 29 anos – na época ainda nomeada como Sociedade de Medicina e Cirurgia de São Paulo -, Euryclides Zerbini nasceu em Guaratinguetá (SP), em 7 de maio de 1912.
E a Medicina na sua vida foi quase por acaso. Zerbini terminou os estudos sem saber sua vocação, sendo incentivado pelo pai, o professor Eugênio Zerbini, a ser médico. No início da faculdade, após assistir uma cirurgia, pensou em desistir. Durante a Revolução Constitucionalista de 1932, apresentou-se como soldado e acostumou-se com os sangramentos vendo o trabalho de atendimento dos feridos – e começou a tomar gosto pela cirurgia.
Graduou-se em 1935, aos 23 anos, pela Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo (FMUSP) e especializou-se em cirurgia geral no Hospital das Clínicas. Aprendeu, inicialmente, com o mestre Alípio Corrêa Netto, se aprofundando na cirurgia torácica. Na FMUSP, tornou-se professor aos 24 anos, em 1936.
Explorando o coração
Antes de realizar o feito pelo qual ficaria marcado na história da Medicina brasileira e mundial, Zerbini já demonstrava coragem. Em 1942, um garoto de sete anos chegou ao pronto-socorro com um estilhaço de ferro dentro do peito. O cirurgião não hesitou e abriu seu coração, religando a artéria coronária e salvando sua vida.
Era uma época em que procedimentos com o coração não eram comuns, e esse fato foi preponderante para que o médico resolvesse ir aos Estados Unidos da América, em 1944, onde continuou seus estudos de cirurgias cardíaca e pulmonares. No ano seguinte, passaria a dedicar-se à cirurgia intracardíaca.
Em 1957, passou a aprofundar os estudos em circulação extracorpórea. Nesta época, foi colega de Christian Barnard na Universidade de Minneapolis (EUA). O sul-africano foi o primeiro médico do mundo a realizar um transplante cardíaco, na Cidade do Cabo (África do Sul), chamando a atenção de todos no ano de 1967.
Em 25 de maio de 1968, Zerbini tornou-se o primeiro médico brasileiro – e apenas o quinto do mundo – a realizar o procedimento. No centro cirúrgico do Hospital das Clínicas da FMUSP, o cirurgião transplantou o coração de Luis Ferreira de Barros, morto por atropelamento, ao peito de João Boiadeiro, como era conhecido o lavrador João Ferreira da Cunha. Realizou, ainda nos anos 1960, outros dois transplantes cardíacos de fundamental importância para o avanço científico.
Retomou este procedimento nos anos 1980, com o advento da ciclosporina, droga capaz de evitar a rejeição do órgão transplantado. Assim, aos 73 anos, voltou a ser pioneiro: em 3 de junho de 1985, realizou em Manoel Amorim da Silva o primeiro transplante de coração em um paciente portador da doença de Chagas.
Outros feitos
Após o tempo que passou nos EUA estudando a cirurgia intracardíaca, retornou ao Brasil e tornou-se diretor do pronto-socorro do HC e cirurgião do Instituto de Cardiologia. Em 1947, montou na instituição, inclusive, uma equipe de especialistas em cirurgia cardíaca. Como professor da FMUSP, idealizou, em 1950, o Centro de Ensino de Cirurgia Cardíaca, semente do que viria a ser o Instituto do Coração (InCor).
O Instituto foi fundado em 1975 e logo se tornou um dos mais conceituados estabelecimentos da América Latina. Dentro do InCor também nasceu a Fundação Zerbini para o Desenvolvimento da Bioengenharia, que passou a exportar tecnologia para os transplantes. Em quase 60 anos de carreira, foi homenageado centenas de vezes, em todo o mundo. Ao todo, sua equipe realizou mais de 40 mil cirurgias cardíacas.
Foi casado com Dirce de Costa Zerbini, médica que passou a fazer parte de sua equipe de cirurgiões. Foi ela quem desenvolveu, em 1958, o primeiro circuito para circulação extracorpórea no Brasil. Tiveram os filhos Roberto, Ricardo e Eduardo. Dizia que morreria operando e quase o fez. Operou e trabalhou até poucos meses antes de falecer, aos 81 anos, no InCor, vítima de um melanoma generalizado.
Matéria publicada na edição 714 (Outubro de 2019) da Revista da APM
Foto: Museu FMUSP/Arquivo