A saúde física e mental dos médicos, bem como a sua integridade e segurança no ambiente profissional, é um assunto delicado. Para que possamos propiciar uma Saúde de qualidade à população, é fundamental cuidarmos de quem cuida, no entanto, este é um aspecto que acaba sendo deixado em segundo plano e é, muitas vezes, negligenciado.
Recentemente, foi lançado o primeiro levantamento sobre bem-estar e qualidade de vida dos médicos. O índice Afya MedQol, publicado na revista científica British Medical Journal Open, teve a participação de mais de 2 mil médicos de todo o Brasil e analisou aspectos primordiais, como qualidade de vida global, apoio institucional e estresse percebido – sendo esta a característica que mais afeta os profissionais.
A Associação Paulista de Medicina, no seu papel de entidade representativa, se mantém sempre atenta e vigilante a essas questões, salientando a necessidade de condições dignas de trabalho, boa remuneração, autonomia na tomada de decisões, entre outros tópicos indispensáveis para que os profissionais tenham não apenas resultados bem-sucedidos, mas que possam equilibrar carreira e vida pessoal de um modo saudável e sustentável.
Ainda de acordo com a pesquisa, a carga de estresse tem uma tendência maior em mulheres, médicos em início de carreira e profissionais com cargas horárias que ultrapassam 60 horas semanais. Isso acende um alerta e nos preocupa muito, já que demonstra que algo nesta equação está falhando e que precisamos agir para reverter este cenário.
Primeiramente, porque a projeção da Demografia Médica no Brasil 2025 aponta que, nos próximos dez anos, as médicas serão maioria no País, representando 55,7% da Medicina nacional. Em segundo lugar, porque aqueles que estão iniciando a sua trajetória profissional precisam do auxílio de seus preceptores na obtenção de novos conhecimentos, para que possam exercer o trabalho com excelência – algo que é impossível se estiverem sobrecarregados. E terceiro, porque cargas horárias excessivas e salários altos não estão, e não podem estar, acima do equilíbrio e bem-estar, até porque, como seria possível usufruir disso sem uma saúde mental adequada?
Desde o início, quando decidimos seguir na Medicina, temos consciência de que esta não é uma carreira fácil. É uma trajetória que exige o nosso máximo, acompanhada por anos de dedicação e entrega. No fim, os resultados costumam ser satisfatórios e quando olhamos para trás percebemos que todo o esforço valeu a pena, mas isso só acontece quando estamos cercados de apoio, respeito e cooperação daqueles que nos cercam.
Nos preocupamos tanto com os nossos pacientes que, às vezes, esquecemos de olhar para dentro e atentarmos a nós mesmos, por isso, esperamos que este estudo seja utilizado para nortear ações que prestem as assistências necessárias à qualidade de vida dos médicos, lembrando sempre que precisamos estar bem para fazer o bem.

Antonio José Gonçalves
Presidente da APM
CRM-SP 25.374 | RQE-SP 18.049 e 19.162 – Especialista em Cirurgia Geral e de Cabeça e Pescoço
Publicado na edição 755 (Março/Abril de 2026) da Revista da APM