Pesquisa identifica perfil de paciente com mais chance de emagrecer

Ter uma meta de peso e se manter motivado são alguns dos fatores que interferem no emagrecimento de pacientes que usam as canetinhas emagrecedoras. Mulheres e pessoas sem doenças preexistentes também estão em vantagem

O que diz a mídia

Um dos maiores estudos em contexto real com pessoas que utilizam medicamentos GLP-1 revelou que ser do sexo feminino, não ter doenças preexistentes como diabetes 2 e hipertensão e estabelecer previamente uma meta de peso são os melhores preditores do emagrecimento. A pesquisa, conduzida por especialistas da Harvard Medical School em Boston, nos Estados Unidos, e o serviço de saúde digital Voy, do Reino Unido, foi feita com 80 mil adultos tratados com a substância tirzepatida.

“Esse é um dos maiores estudos em condições reais com tirzepatida até o momento, e o primeiro a identificar preditores comportamentais e clínicos que antecipam quem responderá melhor ao medicamento”, disse Hans Johnson, líder de pesquisa do Departamento de Pesquisa Clínica e Inovação da Voy. O cientista e os colegas usaram modelos de risco para determinar o tempo necessário para atingir uma perda de 20% do peso corporal total. Também empregaram métodos estatísticos mistos para encontrar associações entre as variáveis clínicas, demográficas e comportamentais e as trajetórias de perda de peso em 12 meses.

A equipe descobriu que as mulheres tendiam a perder mais peso com tirzepatida do que os homens e que condições preexistentes, como diabetes tipo 2, colesterol alto, hipertensão, doença hepática metabólica e apneia obstrutiva do sono, estavam associadas ao emagrecimento mais discreto. Com base nos modelos mistos, os pesquisadores constataram que fatores comportamentais, como definir uma meta de peso pessoal ou ter tentado dietas estruturas anteriormente, estavam associados a uma perde de peso significativamente maior.

Automotivação
Por outro lado, participantes que não tinham automotivação para perder peso apresentaram perda de peso mínima com a medicação. “Essas descobertas podem ajudar os médicos a orientar melhor os pacientes sobre expectativas realistas e adaptar o suporte às necessidades de cada paciente”, disse Johnson. “Por exemplo, os médicos poderiam garantir que os pacientes com barreiras motivacionais para perder peso recebam intervenções comportamentais adicionais juntamente com a medicação.”

A nutricionista Marina Gusmão, de Brasília, lembra que, hoje, a obesidade é classificada como doença crônica e, por isso, o tratamento bem-sucedido é longo. “O medicamento não obrigatoriamente será para toda a vida, mas, para a maioria dos pacientes, o uso tende a ser prolongado.” A especialista esclarece que, quando se emagrece, adaptações neuro-hormonais, como queda de leptina, aumento de grelina e redução do gasto energético, estimulam o reganho de peso. “Isso não é falta de disciplina do paciente, é fisiologia.”

A especialista cita dois grandes estudos sobre a interrupção do tratamento e o impacto disso na perda de peso. No STEP-1, com a semaglutida, os pacientes recuperaram cerca de dois terços do peso perdido em cerca de um ano. No Surmount-4, com a tizerpatida, o reganho foi considerado expressivo entre as pessoas que descontinuaram o tratamento. “Ou seja, para a maioria, parar de vez leva a um reganho parcial relevante.

Subgrupo
Porém, Marina Gusmão reforça que há um subgrupo de pacientes que consegue manter o resultado apenas com mudanças no estilo de vida. “Isso é mais provável quando a perda foi mais moderada e construída ao longo do tempo; as mudanças de comportamento (alimentação, sono, treino de resistência para preservar massa magra) estão bem consolidadas, e quando havia um gatilho identificável e reversível por trás do ganho de peso.”

A nutricionista acrescenta que, cada vez mais, adota-se uma espécie de meio-termo na prática clínica. “Em vez de ‘dose plena para sempre’ ou ‘parar de vez’, trabalha-se com dose de manutenção reduzida, espaçamento das aplicações ou uso intermitente. Isso mantém boa parte do benefício com exposição menor à medicação.”

Fonte: Correio Braziliense