Ser médico: a ciência nas decisões, a humanidade em cada encontro

A Medicina não é uma profissão melhor que as outras; todas, por óbvio, têm grande relevância para a sociedade. Mas penso que a atividade médica é diferente

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A data de 18 de outubro, Dia do Médico, oferece uma oportunidade para refletirmos sobre a nossa vida profissional, que invariavelmente funde-se à nossa vida pessoal, provavelmente mais do que em qualquer outro ramo de atividade.

A Medicina não é uma profissão melhor que as outras; todas, por óbvio, têm grande relevância para a sociedade. Mas penso que a atividade médica é diferente. Uma nova vida trazida à luz numa sala de parto, uma vida salva num pronto-socorro qualquer, a cura de um paciente, ou o alívio daquele que não tem cura contrastando com a missão de dar a notícia de um diagnóstico ruim, a dor da perda de um paciente. A responsabilidade sobre cada decisão que tomamos, e são muitas todos os dias, é enorme. É uma profissão diferente.

Como presidente da Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular – Regional São Paulo (SBACV-SP), contemplo a trajetória que nos une: um longo e exigente caminho iniciado na graduação, consolidado em anos de residência e especialização, e mantido vivo pelo compromisso diário com a atualização continuada.

Contudo, por mais indispensável que seja a busca constante pela excelência técnica, o exercício da Medicina vai muito além dela. Ele exige empatia, acolhimento generoso do paciente e de seus familiares, e um tratamento genuinamente humanizado. Diante da transformação digital e do surgimento de novas ferramentas, não podemos permitir que o uso das novas tecnologias nos distancie daqueles que estão sob nossos cuidados. A inovação deve ser um instrumento de aproximação e precisão, jamais uma barreira ao contato humano.

A dinâmica da relação médico-paciente atual é muito diferente da de anos atrás. Hoje não cabe mais impor tratamentos de forma unilateral. Com um acesso facilitado a volumes crescentes de informação, nem sempre de boa qualidade, o paciente tenta compreender melhor sua condição e exige participar ativamente do processo de decisão sobre tudo o que se relaciona ao seu cuidado. Nosso papel é guiá-lo com clareza, discernimento e sensibilidade técnica.

Mas os desafios do nosso tempo vão além, são amplos e exigem atenção contínua. Enfrentamos a missão árdua de cuidar da boa formação dos novos médicos, em um cenário marcado pela abertura indiscriminada de novas faculdades de medicina. Ao mesmo tempo, precisamos criar condições para atualizar o profissional já formado em um mundo onde novos conhecimentos e tecnologias surgem em velocidade avassaladora. A segurança da população depende disso e, como presidente de uma sociedade médica, afirmo que zelar por essa segurança é um compromisso sagrado.

Não menos importante, é cuidar da saúde mental dos médicos, defender remuneração justa e exigir condições adequadas para o exercício da profissão.

Presto também uma homenagem especial aos médicos que se dedicam à vida acadêmica, gerando e disseminando conhecimento científico que fundamenta a nossa prática e transforma vidas.

Encerro essa reflexão citando um dos grandes nomes da Medicina brasileira, o saudoso Prof. Adib Domingos Jatene: “A função do médico é curar. Quando não pode curar, precisa aliviar. E quando não pode curar nem aliviar, precisa confortar. O médico precisa ser especialista em gente.”

Nós não tratamos doenças. Nós cuidamos de pessoas.

Um fraterno abraço a todos que exercem a Medicina dignamente.


Antonio Eduardo Zerati
Presidente da Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular