A Academia de Medicina de São Paulo (AMSP) realizou, na última quarta-feira (14), mais uma sessão de sua tradicional tertúlia mensal, em formato híbrido, na sede na Associação Paulista de Medicina. O acadêmico Claudio Roberto Cernea, 2° ocupante da cadeira 101, foi o palestrante desta edição e abordou o tema “O legado de Elisabeth Kübler-Ross”.
Helio Begliomini, presidente da AMSP, deu início ao encontro fazendo uma breve apresentação do palestrante. Graduado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), Claudio Cernea dedicou sua carreira universitária à instituição, na qual obteve o doutorado em clínica cirúrgica, em 1991, e a livre-docência em Cirurgia de Cabeça e Pescoço, em 2002.
Atuou como professor visitante em diversas universidades e serviços, no Brasil e no exterior. Atualmente, é médico do Hospital das Clínicas da FMUSP, atuando principalmente nas áreas de Cirurgia de Cabeça e Pescoço, tumores de tireoide, pele, glândulas salivares e base de crânio, carcinoma espinocelular e cirurgia craniofacial.
Elisabeth Kübler-Ross nasceu em Zurique, em 1926. Em 1945, aos 19 anos, após o término da Segunda Guerra Mundial, deixou sua casa contra a vontade dos pais. Sendo estudante de Medicina, trabalhou como voluntária na recuperação do campo de extermínio de Majdanek, na Polônia e, após a graduação, especializou-se em Psiquiatria.
Cuidados paliativos
Cernea contou que ela iniciou sua trajetória na área cuidando de doentes terminais, ocasião em que ficou horrorizada com o descaso com que essas pessoas eram tratadas pelos profissionais de Saúde. Essa situação fez com que mudasse sua postura perante os pacientes.
Ela se sentava ao lado deles e os ouvia atentamente, enquanto eles, num misto de agradecimento e espanto, abriam seus corações.
Com o tempo, Elisabeth Kübler-Ross desenvolveu formas específicas de prestar auxílio a esses pacientes. A partir dessa vivência, descreveu a dinâmica sequencial das reações de uma pessoa ao ser confrontada com o diagnóstico de uma doença grave. Relatou toda essa experiência no livro Sobre a Morte e o Morrer, fruto da observação direta no acompanhamento de cerca de 200 doentes, sendo justamente aqueles que haviam sido abandonados por todos.
Na visão de Claudio Roberto Cernea, o médico deve ter sensibilidade, compaixão, coração aberto e a mente ainda mais aberta para seguir a condução do paciente nessa interação. Para ele, a formação médica é voltada fundamentalmente ao ensino da cura, e não do acolhimento. O palestrante destacou que pouca atenção é dada para ensinar o médico a lidar com a própria impotência diante de situações insolúveis.
O acadêmico reforçou ainda a importância da relação entre médico e paciente, que exige atenção constante, demonstração de interesse e interação com a família. Ressaltou também que é preciso evitar mentiras, sobretudo em resposta a perguntas diretas, enfatizando que jamais se deve subestimar a capacidade de compreensão dessas pessoas.
Como dar a notícia?
O palestrante trouxe os ensinamentos de Elisabeth Kübler-Ross sobre pontos cruciais de como dar a notícia ao paciente e aos familiares, destacando que se deve evitar estipular prazos, que geralmente são imprecisos, pois dependem de diversos fatores imponderáveis na evolução da doença.
Segundo a médica, na primeira fase ocorre a negação e o isolamento, momento em que a participação da família é fundamental para auxiliar no esclarecimento, já que o paciente se encontra vulnerável emocionalmente. A segunda fase é a raiva, acompanhada pelo questionamento: “Tanta gente má por aí vivendo com Saúde, por que isso foi acontecer justo comigo?”. Nessa etapa, é essencial praticar a empatia, imaginando qual seria a nossa própria reação diante de tal contexto, e não tomar eventuais ofensas como algo pessoal.
Na terceira fase, Elisabeth Kübler-Ross aborda a barganha, momento em que surgem pedidos de adiamento do tratamento, como para a realização de uma “última viagem”. A quarta fase é a depressão, quando o paciente toma conscientização das perdas passadas e futuras. Muitas vezes, a família e a equipe médica tentam animá-lo a todo custo, menosprezando a magnitude da situação. Nesse estágio, recomenda-se permitir que o enfermo exteriorize seu pesar, sabendo ouvi-lo sem a necessidade de retrucar, sentando-se ao seu lado mesmo que seja para permanecer em silêncio.
A quinta e última fase é a aceitação. A médica apontava que o paciente que tiver tido o tempo necessário e o apoio adequado chegará a essa etapa com mais tranquilidade, embora ela geralmente venha acompanhada de fraqueza e declínio físico. É neste período que a família necessita de muita ajuda, compreensão e amparo, por vezes, até mais do que o próprio doente.
Em todas as etapas, ela recomendava manter a esperança. Para a equipe de Saúde, a orientação é de que mesmo os doentes incuráveis continuam merecendo tratamento. O médico deve saber lidar com suas limitações e aceitar quando o paciente optar por não seguir estritamente suas orientações, mantendo, ainda assim, a relação médica. Afinal, mesmo que o caso não seja mais cirúrgico, por exemplo, o indivíduo continua sendo seu paciente, se assim o desejar.
Texto e fotos: Maria Lima (sob supervisão de Giovanna Rodrigues)