Durante a VII Jornada de Dor na Mulher, realizada pela Associação Paulista de Medicina e pela Associação de Obstetrícia e Ginecologia do Estado de São Paulo (Sogesp) no último dia 12 de setembro, especialistas de diferentes áreas da Medicina discutiram como reconhecer os diferentes tipos de dor para estabelecer estratégias de tratamento individualizadas.
Pela manhã, a programação incluiu os temas “Sexualidade e dor”; “Desafios do intestino irritável”; “Enxaqueca” e a “Influência hormonal ao longo do ciclo de vida da mulher”.
Sexualidade e Dor
Em sua apresentação sobre “Sexualidade e Dor”, a professora sênior do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), Carmita Abdo, destacou a importância de compreender a dor de maneira individualizada, evitando tratá-la como um fenômeno homogêneo.
Segundo ela, identificar as características específicas da dor é fundamental para definir o diagnóstico e direcionar adequadamente o tratamento. “Na mulher, essa avaliação ganha ainda mais relevância diante da maior prevalência de diversas condições dolorosas, como enxaqueca, fibromialgia, síndrome da fadiga crônica e doenças inflamatórias intestinais”, afirmou.
A relação entre dor e Saúde mental também foi um dos pontos abordados por Carmita, que explicou que a dor crônica pode estar associada a dificuldades para dormir, falta de energia, sonolência, problemas de concentração, ansiedade e depressão, além de alterações de apetite.
A especialista chamou a atenção ainda para a diferença entre dor aguda e dor crônica. “Quando a dor se torna persistente, ela deixa de ser apenas um gatilho para alterações emocionais e passa a fazer parte do cotidiano da paciente, podendo contribuir para um ciclo difícil de interromper. Neste processo, a dor pode provocar pensamentos negativos, irritabilidade, medo, perdas funcionais e sociais e, posteriormente, ansiedade e depressão. A sexualidade está diretamente inserida nesse contexto. A presença de dor, especialmente quando crônica, pode comprometer o desejo, a resposta sexual e a satisfação, além de afetar a relação da mulher com o próprio corpo e com o parceiro. Por isso, a avaliação é fundamental”, complementou.


Dor, intestino e mulher
A segunda palestra contou com aula da membro titular da Sociedade Brasileira de Coloproctologia Amanda Ziegler, que comentou sobre os desafios do diagnóstico e do tratamento da Síndrome do Intestino Irritável (SII), destacando que a condição não deve ser encarada exclusivamente como um problema da Gastroenterologia.
Ressaltou que pacientes com sintomas intestinais circulam por diferentes consultórios, incluindo Ginecologia, Clínica Médica e Cirurgia. “Por isso, reconhecer a síndrome é uma responsabilidade compartilhada entre diferentes áreas.”
Amanda apresentou as recentes atualizações dos critérios de Roma V, que trouxeram uma mudança importante na maneira de compreender a doença. Em vez de utilizar a expressão “problema funcional”, a nova classificação prioriza o conceito de distúrbio da interação intestino-cérebro. A mudança também tem impacto na comunicação com o paciente.
Para a especialista, chamar a condição de “funcional” pode transmitir a ideia equivocada de que não existe uma doença real. O novo conceito reforça que há mecanismos biológicos envolvidos e que os sintomas devem ser reconhecidos e tratados adequadamente.
“A Síndrome do Intestino Irritável está entre os distúrbios intestinais mais comuns e afeta aproximadamente 10% a 15% da população mundial, com maior prevalência entre as mulheres, especialmente as mais jovens. A condição pode comprometer significativamente a qualidade de vida”, revelou.
A palestrante acrescentou que dor e desconforto abdominal associados a alterações do hábito intestinal são elementos centrais da avaliação. “A compreensão dos mecanismos envolvidos é fundamental para um tratamento mais adequado e individualizado.”


Enxaqueca
O professor de Neurologia da Faculdade de Medicina do ABC Caio Simioni falou sobre a enxaqueca nas mulheres e o impacto durante a vida. Segundo ele, a prevalência é significativamente maior no sexo feminino, chegando a aproximadamente 19% das mulheres, contra 12% dos homens. “Trata-se de uma doença neurológica complexa, com impactos que podem permanecer mesmo fora das crises.”
O médico explicou que a compreensão da enxaqueca mudou nas últimas décadas. “A antiga ideia de que a doença seria essencialmente um fenômeno vascular deu lugar ao conceito de que ela é uma doença de redes neurais, envolvendo diferentes regiões e mecanismos do cérebro. Essa mudança de paradigma também ajuda a explicar por que a enxaqueca não se resume à dor. Os pacientes podem apresentar alterações sensoriais, gastrointestinais, cognitivas e emocionais.”
De acordo com o neurologista, os sintomas podem começar antes mesmo da cefaleia. “No período chamado de pródromo, por exemplo, podem ocorrer bocejos frequentes, fadiga, alterações de humor, desejo intenso por determinados alimentos e mudanças na disposição. A aura, caracterizada por sintomas neurológicos transitórios, como alterações visuais ou sensitivas, ocorre em aproximadamente um terço dos pacientes”, complementou.
Por fim, Simioni também chamou a atenção para a relação entre a doença e os chamados gatilhos. “A compreensão atual é mais complexa do que a simples recomendação para que o paciente evite determinados alimentos ou situações.”


Influência Hormonal
Para encerrar o primeiro bloco de palestras, o coordenador Científico de Ginecologia da Sogesp, José Maria Soares, ministrou a palestra “Influência hormonal na dor ao longo do ciclo de vida da mulher”.
Na ocasião, abordou a influência das oscilações hormonais e a necessidade de uma abordagem multidisciplinar. “Ginecologistas precisam trabalhar em conjunto com neurologistas, gastroenterologistas, psiquiatras e outros profissionais. Assim, teremos um melhor tratamento para as mulheres. A dor leva, às vezes, a diminuição de produtividade e o sofrimento”, destacou.
A endometriose também ganhou destaque na aula, uma vez que a doença pode atingir uma parcela significativa das mulheres durante o período reprodutivo e está frequentemente associada à dor crônica e à perda de qualidade de vida.
Segundo Soares, a gestação e o período pós-parto também exigem atenção especial, uma vez que as alterações hormonais podem modificar a manifestação dos diferentes tipos de dor. “O acompanhamento médico individualizado permite identificar necessidades precocemente, orientar sobre prevenção e, quando indicado, oferecer tratamentos que contribuam para mais Saúde e bem-estar.”


Texto e fotos: Alessandra Sales