VII Jornada de Dor na Mulher amplia debate sobre obesidade, sono e exercício físico

Encontro propiciou uma oportunidade de aprendizado, reflexão e construção conjunta

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Dando sequência à programação da VII Jornada de Dor na Mulher, realizada no dia 12 de setembro na sede da Associação Paulista de Medicina, o segundo bloco de palestras aprofundou a discussão sobre “Nutrição e dor”, “Uso de agonistas de GLP-1”, “Disfunções do sono” e “Exercício físico como intervenção terapêutica na dor crônica”.

Nutrição e Dor

A professora e coordenadora da pós-graduação em Nutrologia Esportiva da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM/Unifesp), Alessandra Bedin Pochini, apresentou a relação entre nutrição e dor, destacando que a influência da obesidade sobre a dor não pode ser explicada somente pela sobrecarga mecânica provocada pelo excesso de peso. A especialista ressaltou que fatores como inflamação crônica, alterações metabólicas e variações na massa muscular também devem ser considerados na avaliação clínica.

Em relação à endometriose, Alessandra citou uma análise envolvendo 509 mulheres com dor menstrual ou pélvica, que foram submetidas à investigação por suspeita da doença. Segundo os dados, mulheres com obesidade apresentavam menor frequência de endometriose em comparação àquelas com peso considerado normal. Por outro lado, entre as que tinham a doença, as com maior índice de massa corporal (IMC) apresentavam quadros mais severos.

“A obesidade pode contribuir para o agravamento da inflamação que, por sua vez, pode intensificar a dor. Neste contexto, o tratamento da obesidade pode ter repercussões importantes, não apenas pela perda de peso, mas principalmente pela necessidade de promover mudanças no estilo de vida e considerar seus impactos a longo prazo”, destacou.

Uso de agonistas de GLP-1

Malebranche Berardo Carneiro da Cunha Neto, médico e supervisor da Unidade de Neuroendocrinologia da Neurocirurgia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de São Paulo (HC/FMUSP), ministrou a palestra sobre “Uso de agonistas de GLP-1: implicações metabólicas, hormonais e na dor”.

Na ocasião, ele comentou sobre o que o hormônio e o peso podem influenciar na dor das pessoas. “Então, vamos falar mais de intervenção, como a gente pode agir medicamentosamente e, talvez, trazer perspectivas de tratamento para o futuro. Precisamos relembrar que tudo começou na década de 1980, com o monstro-de-gila, lagarto localizado no sul dos Estados Unidos e norte do México, uma vez que foi encontrada na saliva dele o GLP-1”, contou.

Segundo o médico, a partir daí começaram as pesquisas e apareceram os primeiros análogos de GLP-1. O primeiro foi a Exenatida, vendida como Byetta, e utilizada no tratamento de diabetes tipo 2. “Os estudos foram progredindo no caso da diabetes e da obesidade, e a gente viu uma eficiência muito grande nos medicamentos para esses tratamentos.”

Disfunções do sono e seu impacto na dor

A médica e presidente do Comitê Científico de Sono da APM, Andréa Toscanini, iniciou sua aula explicando como as alterações no sono podem favorecer o aparecimento ou agravamento da dor, enquanto a presença de dor também pode comprometer a qualidade do descanso.

Dados apresentados indicaram que mulheres têm mais alterações relacionadas ao sono do que homens, incluindo situações de privação e insônia. “A relação se torna ainda mais relevante no climatério e na menopausa, períodos em que mudanças hormonais podem contribuir para alterações no padrão de sono”, comentou Andréa.

Também falou sobre síndrome do sono insuficiente, insônia e apneia. “Enquanto a insônia está relacionada à dificuldade persistente de iniciar ou manter o sono, a síndrome do sono insuficiente ocorre quando o indivíduo dispõe de menos tempo para dormir, muitas vezes, em razão da redução voluntária do período destinado ao sono, levando a consequências durante o dia. Se tem um transtorno da dor que é preciso tomar cuidado e investigar é a apneia”, complementou.

Exercício físico

Para encerrar o segundo ciclo de palestras, o ortopedista e professor do curso de Dor do HCFMUSP, André Liggieri, ressaltou a importância do exercício físico como intervenção terapêutica na dor crônica. O especialista citou o sono como parte fundamental para a prática de exercícios e lembrou que a recuperação adequada é parte necessária do processo de treinamento.

Para Liggieri, não existe uma única atividade física adequada para todos os pacientes. “A escolha deve considerar as características individuais, as condições clínicas e a capacidade de cada pessoa, de modo que o exercício possa ser incorporado efetivamente à rotina. Mais do que apenas conhecer as diferentes modalidades, é necessário colocar a atividade física em prática e transformá-la em parte do cuidado”, concluiu.

Texto e fotos: Alessandra Sales