Cleusa Cascaes Dias é diretora Cultural da Associação Paulista de Medicina e uma das referências na Ginecologia e Obstetrícia na região de Ribeirão Preto. Formada em Medicina pela Universidade Federal de Santa Catarina, em 1978, ela conta que sua vontade de seguir a profissão surgiu de um grande interesse pela ciência, leitura, arte e literatura.
Ser médica nunca foi motivo de dúvida. Desde a infância, ela carregava com clareza o senso de dever e o desejo de se dedicar às ciências médicas e às questões relacionadas à saúde. “Acredito que a nossa personalidade e a forma como nos comportamos acabam direcionando as escolhas que fazemos ao longo da vida. Apesar dos inúmeros desafios na graduação, como a extensa carga horária e um modelo de ensino centrado na memorização, felizmente grandes professores me mostraram o caminho, e o que parecia difícil se tornou apaixonante”, conta.
Após se formar, a médica realizou residência em Ginecologia e Obstetrícia na Universidade da República, em Montevidéu, Uruguai, entre 1979 e 1981. “Escolhi essa especialidade por ser uma área que praticamente engloba toda a Medicina, em seus aspectos clínicos, cirúrgicos e psicossociais. A decisão de realizar a residência médica no Hospital das Clínicas da Universidade da República foi motivada pela excelência do grupo liderado pelo professor Roberto Caldeyro-Barcia, médico e pesquisador uruguaio,
diretor do Centro Latino-Americano de Perinatologia (CLAP) e reconhecido internacionalmente como o pai dessa área”, explica.
Neste período, Cleusa foi orientada pelo professor Juan José Poseiro, integrante do CLAP e diretor interino da clínica ginecológica, cuja contribuição foi fundamental para sua formação profissional. “Ambos se dedicaram à pesquisa na área da Fisiologia Obstétrica, desenvolvendo métodos de registro das contrações uterinas e sua correlação com a frequência cardíaca fetal, estabelecendo padrões normais e patológicos durante a gestação e o parto. O resultado deste trabalho, realizado entre as décadas de
1950 e 1980, é hoje a base da assistência obstétrica em todo o mundo. Considero um privilégio extraordinário ter convivido diariamente com esses pesquisadores”, comemora.
Algum tempo depois, Cleusa teve a oportunidade de mudar para os Estados Unidos e realizar cursos complementares de especialização na Universidade de Illinois, em Chicago. Entre 1988 e 1995, concluiu o mestrado e o doutorado em Ginecologia e Obstetrícia pela Faculdade de Medicina de Ribeirão
Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP).
Ao longo de sua trajetória, atuou tanto na prática clínica, em consultório particular, quanto no âmbito acadêmico. “Considero-me uma profissional realizada, pois contribuí para a formação de novos médicos. Fui presidente do Centro Médico de Ribeirão Preto – Regional da Associação Paulista de Medicina – por duas gestões, delegada do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) em Ribeirão Preto e representei os médicos no Conselho Municipal de Saúde por mais de 10 anos. Só tenho
a agradecer pelo aprendizado e convívio com colegas da mais alta qualificação. Uma grande honraria
foi ter recebido o Título de Cidadã Ribeirão-pretana pela Câmara Municipal. Agradeço à minha família, aos pacientes, aos colegas e aos alunos pelo apoio ao longo da minha trajetória”, destaca.
Futuro da especialidade
Ao avaliar o desenvolvimento da Ginecologia e Obstetrícia, Cleusa destaca o expressivo avanço da especialidade nos últimos 50 anos. “Esse progresso foi impulsionado pelo advento da ultrassonografia, que permitiu diagnósticos mais precisos, aliado ao desenvolvimento de outros métodos laboratoriais e à humanização na assistência”, ressalta.
Na área obstétrica, ela cita o desenvolvimento da Medicina Materno-fetal, a prevenção da isoimunização RH, os testes genéticos não invasivos, as cirurgias fetais intrauterinas, os protocolos de manejo da gestação de alto risco, entre outros avanços. Já na Ginecologia, destaca a evolução da cirurgia minimamente invasiva por laparoscopia e cirurgia robótica, as técnicas de reprodução assistida, o melhor controle das infecções, a terapia hormonal e os métodos contraceptivos, além da profilaxia do HPV para a prevenção do câncer do colo uterino e dos avanços diagnósticos e terapêuticos na oncologia ginecológica.
Segundo a especialista, as pesquisas na área seguem em aprimoramento e devem ser priorizadas de acordo com os indicadores de morbimortalidade, com ênfase nas intercorrências na gestação de risco, na medicina fetal e na prevenção e tratamento do câncer ginecológico, associados à vacinação e políticas públicas abrangentes. Diante dos avanços recentes, vê o futuro da especialidade com otimismo, confiante no uso responsável das novas tecnologias.
Ela considera a Ginecologia e Obstetrícia uma das especialidades de destaque, devido ao seu caráter clínico-cirúrgico e ampla variedade de áreas de atuação: “Trata-se de uma especialidade que apresenta desafios, mas oferece igualmente recompensas e significativa satisfação pessoal, especialmente para aqueles que acompanham os processos de geração da vida”.
Por fim, Cleusa Cascaes Dias acredita que as mulheres ainda enfrentam desafios importantes para conciliar a vida profissional e familiar, em razão das longas jornadas de trabalho e dos plantões. “Isso exige priorização de objetivos pessoais e demanda mudanças institucionais, como a redução da carga horária. Além disso, persistem desigualdades salariais, discriminação na carreira por motivos como a maternidade e baixa presença feminina em cargos de liderança e de representação nas instituições médicas e acadêmicas.”
Matéria publicada na edição 754 (Janeiro/ Fevereiro de 2026) da Revista da APM