Nesta quinta-feira, 11 de junho, a Associação Médica Brasileira deu início à 4ª edição do Congresso Brasileiro de Medicina Geral. O evento contou com temas de amplo interesse e relevância para os participantes, entre eles a mesa sobre “A mulher médica – Comissão Nacional em Defesa dos Direitos no Trabalho da Mulher Médica da AMB (Conadem) / Comissão Nacional do Médico Jovem (CNMJ)”.
A mesa foi coordenada por Luciana Rodrigues Silva, 1ª vice-presidente da AMB; Maria Rita de Souza Mesquita, 1ª secretária da AMB e secretária geral adjunta da Associação Paulista de Medicina; e Amanda Oliva Spaziani, presidente da APM Fernandópolis.
O presidente da AMB, César Eduardo Fernandes, reforçou que a ascensão das mulheres na Medicina já é uma realidade e relembrou o trabalho exercido pela Conadem. “Se pegarmos a faixa etária de médicos com mais de 50 anos, teremos mais homens, porque se formavam mais homens no passado. Mas hoje, quanto mais abaixamos essa pirâmide etária, mais médicas encontramos. Temos menos mulheres que participam da Diretoria da AMB, mas é só uma questão de tempo para isso mudar. Eu sempre acreditei na força de trabalho e na competência das mulheres.”



Estudos
Luciana apresentou dados e reflexões sobre a Demografia Médica do Brasil e os desafios da mulher médica na atualidade, demonstrando na prática, por meio de três estudos – dois já publicados e um que está sendo finalizado – o trabalho que vem sendo realizado pela AMB neste sentido.
Os estudos se dividem entre análise institucional em entidades e escolas médicas, pesquisa qualitativa com mulheres em situação de liderança e survey nacional, com 4.600 questionários distribuídos em todos os estados, com o objetivo de produzir um diagnóstico nacional sobre carreira médica no País.
“A profissão vem passando por um processo de feminização. Entender essa transição é essencial para que possamos discutir carreira, condições de trabalho, liderança e futuro da Medicina, pois o poder institucional ainda permanece desigualmente distribuído e a desigualdade de gênero afeta carreira, remuneração, reconhecimento e liderança. Mapear essas desigualdades permite uma observação melhor para transformar evidências institucionais em dados nacionais, que poderão orientar políticas de equidade, transparência, mentoria, proteção e desenvolvimento de lideranças”, esclareceu.
A palestrante também relatou questões relacionadas ao preconceito que mulheres enfrentam, a necessidade de constantemente terem que comprovar as suas competências e os desafios que precisam lidar balanceando vida profissional e pessoal – principalmente no quesito maternidade. “Com esses estudos, pretendemos diminuir desigualdades e contribuir para uma Medicina mais justa, plural e representativa. Precisamos enxergar e valorizar a mulher médica para tentar desenvolver políticas públicas em prol dessas profissionais” finalizou.

Mulher paciente e médica
Em seguida, a advogada Ivani Pereira Baptista dos Santos falou sobre os desafios éticos, legais e institucionais para a mulher paciente e a médica. Ela recordou que o direito a um acompanhante em procedimentos médicos surgiu, inicialmente, do direito a um acompanhante nos casos de trabalho de parto, parto e pós-parto.
Trazendo uma série de exemplos, por meio de notícias em que mulheres sofreram agressões durante atendimentos, Ivani promoveu uma reflexão a respeito do tema. “Quando a sociedade precisa criar uma lei dizendo que a mulher pode ter acompanhamento em um procedimento médico, isso nos revela que o problema não é individual, e sim institucional. A autonomia feminina não significa afastar a boa prática médica, mas impedir que a mulher seja infantilizada na gestão de seu próprio corpo.”
No caso das médicas, ela demonstrou que as violências ocorrem na mesma proporção das pacientes, trazendo situações recentes de profissionais que sofreram tentativas de agressões e de assédio. “Todos esses casos são extremamente atuais para demonstrar que a agressão contra a mulher, seja paciente ou médica, continua presente nos nossos dias, seja no atendimento ou no exercício da Medicina.”
A advogada salientou que, apesar de serem maioria, ainda não há igualdade entre mulheres e homens – e isso se reflete de diferentes formas, seja na diferença salarial ou na luta por direitos básicos. Assim, sugeriu o que pode ser feito para mudar este cenário.
“Temos que ouvir e acreditar mais na palavra das mulheres, não normalizar comportamentos abusivos, conhecer canais de denúncia, apoiar as vítimas de violência ou discriminação e transformar a cultura. Precisamos repensar as premissas para que a mulher seja respeitada, valorizada e remunerada tanto quanto o homem. O desafio é ético e institucional e, no nosso tempo, nenhuma mulher deveria precisar de proteção especial para obter aquilo que deveria ser natural: a sua dignidade.”

Mulheres na Ciência
Finalizando as apresentações, a neurocirurgiã e diretora de Serviços aos Associados da APM, Diana Lara Pinto de Santana, falou sobre as mulheres na Ciência. Ela trouxe sua trajetória pessoal para iniciar a discussão, relembrando que é uma mulher negra, mãe, neurocirurgiã e pesquisadora, reforçando, também, que a curiosidade foi um dos fatores que a motivou a seguir nesta carreira.
“Porém, isso tudo são pontos de uma trajetória individual e trajetórias individuais não mudam o sistema. Apesar de termos garras e corrermos em direção à Medicina e à Ciência, nós precisamos entender quais são as barreiras e o que precisamos fazer enquanto instituições para modificar isso para que não seja benéfico só para mim, mas sim para todos”, argumentou.
A neurocirurgiã trouxe dados sobre um estudo realizado na pós-graduação da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, que demonstra que as mulheres entram na graduação equiparadas com os homens. No entanto, à medida que progridem na carreira e começam a se tornar pesquisadoras e docentes, a porcentagem de profissionais mulheres cai, enquanto os homens sobem exponencialmente – fenômeno chamado de “efeito tesoura na Ciência”.
Diana explicou que isso acontece não pelo fato de as mulheres serem piores, mas sim por, desde o início da carreira – e principalmente durante a primeira década –, terem que lidar com dificuldades muito maiores. No caso daquelas que conseguem se desvencilhar de tal situação, ainda precisam enfrentar a dificuldade de acesso a cargos de chefia e de progressão, mesmo apresentando produtividade acadêmica igual ou maior que seus pares do sexo oposto.
“Representatividade é o que importa e é o grande motor da Ciência. Se não tivermos representatividade, equidade e excelência, não conseguiremos ter os avanços que a nossa Medicina precisa para atender as demandas de toda a população. Para inovação, precisamos de representação, além de também ser importante para que haja reparação histórica e justiça social”, concluiu.

Fotos: C41 Estúdio