Cuidado integrado encerra a VII Jornada de Dor na Mulher

Palestrantes debaterem os mecanismos da dor crônica e a relação com ansiedade, depressão e trauma

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O último ciclo de palestras da VII Jornada de Dor na Mulher, realizada em 12 de setembro, na Associação Paulista de Medicina, aprofundou a discussão sobre a complexidade da dor crônica. As apresentações abordaram “Sensibilização central”, “Ansiedade, depressão e trauma na dor crônica”, além de um modelo integrado de cuidado na dor da mulher.

Sensibilização central

Na palestra “Sensibilização central: quando a dor deixa de ser periférica”, o neurologista e doutor em Ciências pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) Rogério Adas discutiu os mecanismos envolvidos na modulação da dor e os desafios relacionados à transição entre a dor aguda e a dor crônica.

Segundo ele, a dor é uma experiência multidimensional, resultado da interação de diferentes sistemas do organismo. “O sistema nervoso possui mecanismos capazes tanto de aumentar quanto de reduzir a percepção dolorosa, e essa resposta pode sofrer influência de fatores fisiológicos, cognitivos, emocionais e ambientais.”

O especialista apresentou a sensibilização central como um conjunto de alterações neurofisiológicas que modifica a maneira como o sistema nervoso processa os estímulos dolorosos.

Ansiedade, depressão e trauma na dor crônica

Já o professor e coordenador de Psiquiatria da Universidade de Santo Amaro (UNISA), Kalil Duailibi, abordou o tema “Ansiedade, depressão e trauma na dor crônica: o que o médico precisa saber”.

Em sua palestra, falou sobre o crescimento dos transtornos de ansiedade e depressão nos últimos anos, especialmente no contexto da pandemia de Covid-19. “O isolamento social e o estresse crônico foram apresentados como fatores que podem repercutir tanto sobre a Saúde mental quanto sobre o funcionamento físico. A depressão, o estresse, o isolamento social, a ansiedade, as doenças clínicas e a insônia já perpetuariam a um estado inflamatório”, destacou.

Para o especialista, a avaliação da paciente precisa considerar diferentes dimensões de sua vida, incluindo personalidade, experiências, relações sociais, hábitos, qualidade do sono e condições clínicas. “A abordagem psiquiátrica, neste sentido, não se limita ao diagnóstico de transtornos mentais, mas também envolve a compreensão da história e do contexto de cada indivíduo.”

Um modelo de cuidado na dor da mulher

Para encerrar a programação científica, o professor Titular aposentado do Departamento de Cirurgia da Escola Paulista de Medicina (EPM) Hélio Plapler apresentou a palestra “Modelo integrado de cuidado na dor da mulher: da teoria à prática”.

Na ocasião, destacou a necessidade de reconhecer que a experiência dolorosa feminina é influenciada por múltiplos fatores. Entre eles estão aspectos biológicos, psicológicos, sociais e culturais, além das diferentes fases da vida. “Alterações hormonais, gestação, climatério, sensibilização central, ansiedade, alterações do sono e outras condições podem interferir na forma como a mulher percebe e enfrenta a dor”, comentou.

O especialista também citou a subestimação das queixas dolorosas femininas, podendo contribuir para o atraso na identificação de doenças, bem como nas dificuldades de acesso ao tratamento adequado. “A endometriose foi citada como exemplo de condição que pode permanecer sem diagnóstico durante um período prolongado.”

Para o médico, ouvir a paciente é papel fundamental, e a linguagem utilizada para descrever a dor permite ao profissional compreender características, intensidade, evolução e impactos do sintoma, além de estabelecer uma relação de confiança com a paciente. “Dar espaço para que ela expresse sua experiência, portanto, também integra o processo de cuidado”, concluiu.

Texto e fotos: Alessandra Sales