Passado, presente e futuro da Medicina do Sono são temas de aulas magnas do XXIII Congresso Paulista de Medicina do Sono

Conferências abordaram apneia obstrutiva e transtorno comportamental do sono

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Na última sexta-feira, 29 de maio, São Paulo foi palco da 23ª edição do Congresso Paulista de Medicina do Sono. O evento, amplamente conhecido por ser multidisciplinar e trazer temas de interesse para diferentes áreas da Medicina e da Saúde, contou com a aula magna “Do ronco aos sonhos: 50 anos da apneia obstrutiva do sono e 40 anos do transtorno comportamental do sono – passado, presente e futuro da Medicina do Sono”, expandindo os conhecimentos dos participantes.

Falando sobre apneia obstrutiva do sono, o otorrinolaringologista Edilson Zancanella descreveu os objetivos de sua apresentação. “A ideia é que falemos um pouco do que é o passado, para ficar mais fácil. O que é o presente, que é aquilo que está no nosso dia a dia. E o que é o futuro, que é para imaginar onde podemos chegar.”

Segundo o especialista, atualmente há uma grande variabilidade de medicamentos e dados, permitindo melhorias e impactos nos resultados. Ele também recordou que há um amplo número de equipamentos disponíveis para uma imensa população que precisa receber diagnósticos de problemas relacionados ao sono, o que torna a demanda significativa.

“A ideia é que nós possamos, pensando em futuro, evoluir para algo que seja um pouco diferente. Se temos uma noite inteira conectados, posso ganhar métricas em várias noites e que essas noites possam ser computadas e comparadas. Que essa média possa ser, realmente, mais fidedigna com o que vamos investigar. Podemos ter um ambiente artificial [por exemplo, uma clínica, para a realização de exames como a polissonografia], em que eu coloco múltiplos sensores, ou eu posso colocar alguém em casa, e talvez ganhar todos os detalhes de uma forma um pouco diferente”, esclareceu.

Zancanella salientou que há muitos subdiagnósticos, mas que os mecanismos de transformação vêm sendo suficientes para dar informações mais precisas, entendendo as modificações observadas e possibilitando dar ou não valor aos dados obtidos. Ele também destacou que a utilização de dispositivos vestíveis, os wearables, também traz informações interessantes para otimizar as diferentes formas de tratamento para pacientes que sofrem com distúrbios do sono. “Isso é o nosso presente, mas pode ser que o futuro seja muito mais interessante no sentido de integralizar informações. É uma ponte que vamos ter que cruzar para fazer exames com critérios baseados na evidência científica da informação.”

O palestrante concluiu que os médicos precisam estar adeptos às novas tecnologias, uma vez que elas estão cada vez mais presentes na profissão. “Hoje já temos isso, as plataformas já estão disponíveis e temos que colocá-las em prática para fazer o melhor. O futuro está aí para mostrar que talvez a ideia desse ponto seja algo interessante e que aquilo que discutimos como práticas terapêuticas realmente possam nos ajudar a entender as opções mais adequadas. Eu acho que o diagnóstico, em algum momento, será mais facilitado e poderemos utilizar esse tempo para alguma outra coisa, entendendo e customizando um pouco melhor o que vamos tratar.”

Transtorno Comportamental do Sono REM

Em seguida, o neurologista Alan Eckeli falou sobre “Transtorno Comportamental do Sono REM”, condição clínica que foi descrita pela primeira vez em uma publicação de 1986 e este ano está completando 40 anos, se manifestando de forma muito ilustrativa, com pacientes que têm sono instável e movimentações intensas – que podem ser bruscas ou não.

Para evidenciar isso, o médico trouxe o vídeo de diferentes pacientes que sofrem com o distúrbio, relatando que não necessariamente todos os episódios serão violentos e abruptos, mas que podem colocar em risco a segurança deles e de seus parceiros. Exemplo disso é que, em um desses casos, um paciente relatava sonhar que estava fugindo de um cachorro, dando chutes no ar quando, na realidade, dava chutes na perna da esposa durante o estado de inconsciência do sono. Posteriormente, ele foi diagnosticado com Parkinson, relembrando que doenças neurodegenerativas estão diretamente associadas ao transtorno comportamental do sono REM.

“A cada ano, a chance de desenvolver a doença neurodegenerativa é próximo de 6% e se fizer uma taxa de conversão de 12 anos é próximo de 73%. Ou seja, em 12 anos, quase três quartos dos pacientes vão desenvolver essa condição e é por isso que ela tem importância, porque nos dá a possibilidade de ter uma janela temporal até de neuroproteção. Então, entender a doença, a condição clínica e identificar a condição científica de termos uma janela temporal de avaliação”, explicou.

Além disso, Eckeli também trouxe estudos de diferentes países e destacou que a utilização de inteligência artificial é um ponto que já está presente, sendo esta uma ferramenta capaz de auxiliar na detecção de sono REM em pacientes desafiadores. Para o especialista, é fundamental relembrar da questão da segurança, tomando medidas protetivas, como dormir em camas separadas, colocar o colchão no chão, tirar objetos perfurocortantes de perto, colocar protetores perto da cama e saber dosar corretamente as medicações.

“Esperamos poder analisar melhor essa função para que, futuramente, tenhamos biomarcadores bastante distintos e façamos um diagnóstico muito precoce. Com isso, a expectativa é de que consigamos fazer integrações práticas. Eu gostaria de que, no futuro, tivéssemos clínicas que fossem falar de tratamento preventivo para doenças neurodegenerativas e fizessem diagnóstico precoce para que o tratamento não fosse sintomático, mas sim curativo”, concluiu.

Fotos: C41 Estúdio