A população idosa é uma das mais afetadas pelos efeitos climáticos ocasionados pelas ondas de calor, enfrentando, além de impactos variados na Saúde, desfechos preocupantes. Foi com foco nesta abordagem que Gilberto Natalini recebeu Adriana Polachini do Valle, professora do departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina de Botucatu, no mais recente episódio do APMCast, divulgado na última sexta-feira, 21 de agosto.
Adriana é responsável por conduzir estudo sobre o tema e explicou que a sua linha de pesquisa surgiu após observar que as ondas de calor – cada vez mais severas, intensas e prolongadas, principalmente em um País tropical como o Brasil – traziam desconforto e mal-estar à população idosa, fazendo com que ela se questionasse quais eram os desfechos desta situação em termos de Saúde.
“Comecei estudando particularmente o estado de São Paulo, em relação às ondas de calor, e tivemos o olhar das unidades geográficas a partir dos Departamentos Regionais de Saúde (DRS), para ver as diferenças que ocorriam nessas regiões, porque o Brasil é muito heterogêneo e o estado de São Paulo também”, relatou.
Em seguida, descreveu como foi feita a metodologia para concluir o estudo observando o impacto das ondas de calor nos desfechos cardiovasculares e respiratórios de pessoas acima de 60 anos. “Fizemos o levantamento pelo Data SUS das mortes diárias por doença cardiovascular e respiratória, desde o ano de 2010 até 2024, pulando o espaço da pandemia de Covid-19. Ao mesmo tempo, também fizemos um levantamento da presença ou ausência de ondas de calor no mesmo período, para isso, estudamos por meio de satélites copérnicos para que pudéssemos identificar os departamentos de Saúde, compreendendo qual era a latitude e longitude de cada região e dali baixar os dados diários.”
Resultados
Segundo Adriana, o estudo permitiu concluir que as ondas de calor trazem, sim, impactos à Saúde dos idosos, especialmente na mortalidade, que acaba tendo mais repercussão que as internações por doenças cardiorrespiratórias. Neste sentido, a especialista salientou que houve um aumento de até 75% de mortalidade ocasionada por causas cardiovasculares em idosos durante períodos de ondas de calor.
“Nesse estudo, além de observar o aumento dos riscos de óbito e internação por causas cardiorrespiratórias em idosos, também observamos as diferenças regionais dos 645 municípios do estado de São Paulo, divididos entre as 17 DRSs. Uma coisa que era interessante é que nem sempre a regional de Saúde mais quente era a que tinha mais óbito, na verdade, quem tinha mais óbito era a mais pobre, e isso chamou a nossa atenção”, expôs.
Ela também complementou: “Nós olhamos o IDH médio daquelas regiões, observamos a porcentagem de saneamento básico, a oferta de água e de esgoto àquelas populações; financiamento em Saúde, o quanto se investia; cobertura de atenção primária; cobertura em estratégia de Saúde da família. Claro, quem tinha esses indicadores melhores, tinha uma melhor capacidade adaptativa que, muitas vezes, correspondia à menor sensibilidade. Então, vemos que não é só a questão intrínseca do idoso que tem mais riscos diante de uma onda de calor, mas também a chance de morrer ou de ser internado depende da infraestrutura de toda uma questão que cabe aos gestores e às políticas públicas para modificação deste contexto.”
A especialista comentou que o estudo está publicado na revista científica Journal of Ageing and Longevity, e que já está encaminhando outros projetos, focados em fraturas colo proximais e doenças renais crônicas na vigência de ondas de calor em idosos.
“Alterações climáticas são amplificadores de doenças pré-existentes e os idosos acabam sendo mais vulneráveis por várias questões. Primeiro pela fisiologia do envelhecimento, que faz com que o idoso retenha mais calor e fique muito suscetível. Esse calor extremo leva a uma fraqueza muscular, sonolência, hipotensão, queda e fratura”, demonstrou.
Finalizando, a pesquisadora parabenizou a iniciativa da APM no desenvolvimento da Comissão dos Médicos pelo Clima e pelo Meio Ambiente. “Acho superimportante estar aqui para repassar a informação. A equipe médica está em letramento com relação às questões climáticas impactando a Saúde das pessoas. Que eles levem para suas práticas clínicas as orientações de prevenção para os idosos. A comunicação é um determinante em Saúde, então que a gente se comunique e leve isso aos nossos pacientes.”
Foto: Reprodução APMCast